Crueldade

A crueldade é um dos prazeres mais antigos da humanidade. Portanto acreditam que os deuses também se regozijam quando se lhes oferece o espetáculo da crueldade – de tal modo, que a ideia do sentido e do valor superior que há no sofrimento voluntário e no martírio livremente escolhido introduz-se no mundo. Pouco a pouco, o costume estabelece na comunidade uma prática conforme a esta idéia; desde então se desconfia de todo bem-estar licencioso e se adquire cada vez mais confiança nos grandes estados de sofrimento; dizem que os deuses poderiam ser-nos hostis vendo nossa felicidade e favoráveis vendo nosso sofrimento: serem hostis e não se apiedarem de nós! Pois a piedade é considerada como desprezível e indigna de uma alma forte e terrível; mas os deuses nos são porque o espetáculo das misérias os diverte e os põe de bom-humor, pois a crueldade proporciona a mais alta voluptuosidade ao sentimento de potência.

Assim é que se tem introduzido na noção do homem moral, tal como existe na comunidade, a virtude do sofrimento frequente, da privação, da existência penosa, da mortificação cruel: – não- repetimo-lo, como meio de disciplina, de domínio de si próprio, de aspiração à felicidade pessoal, mas como uma virtude que dispõe favoravelmente para a comunidade os deuses malvados, elevando constantemente até eles o fumo de um sacrifício expiatório. Todos os condutores espirituais de povos que souberam por em movimento a lama preguiçosa e fértil dos costumes necessitaram da loucura, além do sacrifício voluntário, para obter crédito; e, principalmente, como sempre, necessitaram da fé em si mesmos! Quanto mais seguia seu espírito os novos caminhos e era atormentado pelos remorsos e pelo temor, mais cruelmente lutava contra sua própria carne, contra seu próprio desejo e contra sua própria saúde, como para oferecer à humanidade uma compensação de gozos, e no caso que se irritasse devido aos costumes esquecidos ou combatidos, devido aos novos fins que a si traçara. Contudo não se deve pensar, mostrando assim demasiada complacência de semelhante lógica dos sentimentos. Que as almas mais heróicas se interroguem neste ponto em seu foro íntimo! O menor passo dado para diante, no domínio do livre pensamento e da vida individual, foi conquistado, em todos os tempos, através de torturas intelectuais e físicas; e não foi somente um passo adiante, não: toda a classe de passos, de movimentos, de trocas têm necessidade de inumeráveis mártires, no curso desses milhares de anos em que buscavam os seus caminhos e que edificavam bases, mas nos quais não se pensa quando se fala desta classe de espaço de tempo ridiculamente pequeno na existência da humanidade e que se chama história universal e ainda no domínio desta história universal, que não é, em suma, mais que o ruído em torno das últimas novidades, não há assunto mais essencial nem mais importante que a antiquíssima tragédia dos mártires que querem movimentar o pântano.

Nada custou mais caro que esta pequena parcela de razão humana e de sentimento de liberdade de que tanto nos orgulhamos hoje. Mas por este mesmo orgulho nos é quase impossível adquirir o sentido desse imenso lapso de tempo em que reinava a “moralidade dos costumes” e que precede a “história universal”, época real e decisiva, de primeira importância histórica, que fixou o caráter da humanidade, época em que o sofrimento era uma virtude; a crueldade, uma virtude; a dissimulação, uma virtude; a vingança, uma virtude; a negação da razão, uma virtude; em que o bem-estar, ao contrário, era um perigo; a sede de saber, um perigo; a paz, um perigo; a compaixão, um perigo; a excitação à piedade, uma vergonha; o trabalho, uma vergonha; a loucura, algo divino; a mudança, algo imoral, cheia de perigos. Credes que tudo isso se transformou pelo fato de ter a humanidade variado de caráter?

Ó conhecedores do homem, aprendei a conhecer-vos melhor! (Friedrich Nietzsche – Aurora-Reflexões sobre os preconceitos morais)

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