Olhar além do próximo

Como? A essência do que é verdadeiramente moral consistiria para nós em considerar as consequências próximas e imediatas que podem ter nossas ações para com os outros e em decidir-nos segundo estas consequências? Isto não é mais que uma moral estreita e burguesa, embora seja uma moral; mas parece-me que seria superior e mais sutil olhar além destas consequências imediatas para o próximo a fim de animar propósitos mais distantes, com risco de sofrerem os outros; por exemplo, alentar o conhecimento, apesar da certeza de que nossa liberdade de espírito começará primeiramente por lançar os outros na dúvida, no pesar e em algo pior ainda.

Não temos o direito de tratar o nosso próximo, pelo menos, da mesma maneira que nos tratamos? E se não pensamos para nós mesmos de maneira tão estreita e burguesa, nas consequências e sofrimentos imediatos, por que haveremos de estar obrigados a tratar desse modo o nosso próximo? Admitindo que tenhamos para nós próprios o sentido do sacrifício, o que nos impediria sacrificar o próximo conosco, como fizeram até hoje o Estado e os soberanos, sacrificando um cidadão aos outros cidadãos, “pelo interesse geral”, como se diz? Mas nós também temos interesses gerais, e talvez mais gerais ainda; por que não havíamos de ter o direito de sacrificar alguns indivíduos da geração atual em proveito das gerações futuras, de sorte que suas penas e suas inquietações, seu desespero, seus erros e vacilações fossem julgados necessários porque um novo arado deve fecundar a terra para todos?

E, finalmente, nós comunicamos ao próximo um sentimento que o faz considerar-se como uma vítima, persuadimo-lo a aceitar a tarefa em que o empregamos. Carecemos de compaixão? Mas, sim, por cima de nossa compaixão, quiséramos conseguir uma vitória sobre nós mesmos, não seria esta uma atitude moral mais alta e mais livre do que aquela em que nos sentimos a coberto, em que uma ação faça bem ou mal ao próximo? Pois, pelo sacrifício – a que nos temos vinculado, nós, assim como nossos próximos – , fortificaríamos e elevaríamos o sentimento geral da potência humana admitindo que não alcancemos mais.

Esta seria já um aumento positivo de felicidade. E, finalmente, se fosse assim…mas, nem uma palavra a mais! Basta um olhar; já me haveis compreendido. Friedrich Nietzsche – Aurora – Reflexões sobre os preconceitos morais.

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Uma resposta para Olhar além do próximo

  1. Nietzsche Grande Filosofo já conheci um pouco das teorias dele em uma pesquisa de escola e me surpreendi pois ele defendo bens muito preciosos e muito polêmico também

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