Sentir-se compadecido

Entre os selvagens sente-se com um arrepio moral ser compadecido: isto seria a prova de que se carece de toda virtude. Compadecer-se de alguém equivale a desprezar; não se quer ver sofrer a um miserável; isto não proporciona nenhum gozo. Ver sofrer, pelo contrário, a um inimigo que se considera igual em altivez, e que resiste à tortura e, em geral, ver sofrer a todo ser que não quer decidir-se a evocar compaixão, quer dizer, a humilhação mais vergonhosa e mais profunda, é o gozo dos gozos; a alma do selvagem se edifica ali até à admiração: acaba por matar um tal bravo, quando está em seu poder, rendendo-lhe, a ele, o inflexível, as últimas homenagens. Se este houvesse gemido, se o rosto tivesse perdido sua expressão de frio desdém, se se tivesse mostrado digno do desprezo – então teria podido continuar vivendo como um cão – não teria então excitado a altivez do espectador, e a compaixão substituiria a admiração. Friedrich Nietzsche – Aurora – Reflexões sobre os preconceitos morais.

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