A renúncia de sua própria mente

“‘É à sua mente que eles querem que vocês renunciem, todos os que pregam a doutrina do sacrifício, quaisquer que sejam os rótulos que atribuam ou os objetivos que proclamem. Tanto faz se exigem isso de vocês para conquistar suas almas ou seus corpos, se lhes prometem uma outra vida no céu ou a barriga cheia neste mundo. Aqueles que começam dizendo ‘É egoísmo buscar satisfazer seus próprios desejo, é necessário sacrificá-los aos desejos dos outros’ terminam afirmando ‘É egoísmo se ater às suas convicções, é necessário sacrificá-las às convicções dos outros’.

É bem verdade que a coisa mais egoísta que há é a mente independente que não reconhece nenhuma autoridade mais elevada do que a sua própria, nenhum valor mais elevado do que seu critério de verdade. Pedem a vocês que sacrifiquem sua integridade intelectual, sua lógica, sua razão, seu padrão de verdade – para se tornarem prostitutos cujo padrão é o máximo de bem para o maior número de pessoas.

Se vocês procurarem, no seu código moral, uma resposta à pergunta ‘O que é o bem?’, a única resposta que encontrarão será: ‘O bem dos outros’. O bem é tudo aquilo que os outros desejam, tudo aquilo que vocês acreditam que eles acham que desejam, ou tudo o que acham que eles deviam achar. ‘O bem dos outros’ é a fórmula mágica que transforma qualquer coisa em ouro, uma fórmula a ser recitada como garantia de glória moral que redime qualquer ato, até mesmo massacre de todo um continente. O seu padrão de virtude não é objeto, nem um ato, nem um princípio, mas uma intenção. Vocês não precisam de provas, nem razões, nem sucesso, não precisam realizar concretamente o bem dos outros – basta saber o que os motivou foi o bem dos outros, não o seu. A sua única definição de bem é uma negação: o bem é o ‘não bom para mim’.

O seu código moral, que afirma defender valores morais eternos, absolutos e objetivos e despreza o condicional, o relativo e o subjetivo – o seu código propõe como absoluta a seguinte regra de conduta moral: se vocês desejam algo, isso é mau; se os outros desejam algo, isso é bom; se a motivação é o bem-estar dos outros, então vale tudo.

‘Do mesmo modo que essa moralidade de duplo padrão divide o indivíduo ao meio, ela divide a humanidade em duas hostes inimigas: de um lado, vocês; do outro, o restante da humanidade. Vocês são os únicos degredados que não têm direito de desejar nem de viver. Vocês são os únicos servos; os outros são os senhores. Vocês são os únicos que dão; os outros só tomam. Vocês são os eternos devedores; os outros são os credores que nunca conseguirão satisfazer. Vocês não podem questionar o direito deles de lhes cobrar um sacrifício, nem a natureza de seus desejos e necessidades: esse direito é conferido a eles por uma negativa, o fato de que eles são ‘não vocês’.

‘Para aqueles que poderiam se aventurar a fazer perguntas, o código contém um prêmio de consolação, uma armadilha: é para a própria felicidade que vocês têm que servir à felicidade dos outros. A única maneira de se ter prazer é ceder aos outros, a única maneira de conquistar a prosperidade é abrir mão de sua riqueza em favor dos outros. A única maneira de proteger sua vida é proteger todos os homens, menos vocês mesmos – e, se isso não lhes dá prazer, é por culpa sua, e prova que vocês são maus. Se fossem bons, encontrariam felicidade em servir banquetes aos outros e veriam dignidade em se alimentar apenas das migalhas que eles houverem por bem jogar para vocês’.

‘Vocês, que não tem nenhum padrão de amor-próprio, aceitem a culpa e não ousem fazer perguntas. Mas sabem qual é a resposta não admitida e se recusam a admitir o que veem, a admitir que seu mundo é regido pelas premissas ocultas. Vocês sabem, embora não o admitam honestamente e sintam um vago mal-estar obscuro dentro de si próprios, no momento em que oscilam entre transgredir cheios de culpa e praticar de má vontade um princípio malévolo demais para ser explicitado’.

‘Eu, que não aceito o imerecido, nem quando se trata de valores nem quando se trata de culpa, estou aqui para fazer as perguntas que vocês evitam fazer. Por que é moralmente correto servir à felicidade alheia, mas não à sua própria? Se o prazer é um valor, por que ele é moralmente aceitável quando experimentado pelos outros, porém imoral quando experimentado por vocês? Se a sensação de comer um bolo é um valor, por que é um ato imoral de gula para o seu estômago, porém um objetivo moral a ser atingido pelo estômago dos outros? Por que desejar é imoral para vocês, mas não o é para os outros? Por que é imoral produzir um valor ficar com ele, mas não o é para os outros? E, se é imoral para vocês ficar com um valor, por que não é imoral para os outros aceitá-lo? Se vocês são altruístas e virtuosos quando o dão, eles não serão egoístas e maus quando o aceitam? Então a virtude consiste em servir o vício? Então o objetivo moral dos bons é se imolar em benefício dos maus?’

‘A resposta monstruosa de que vocês se esquivam é: ‘Não, os que recebem não são maus, desde que não mereçam o valor que lhes deram. Não é imoral para eles aceitar a dádiva, desde que eles sejam incapazes de produzi-la, incapazes de merecê-la, incapazes de lhes dar algo em troca. Não é imoral para eles encontrar prazer nela, desde que eles não a obtenham por direito‘.

‘É este o código secreto da sua doutrina, a outra metade do seu padrão duplo: é imoral viver do próprio trabalho, mas é direito viver do trabalho dos outros. É imoral consumir o próprio produto, porém é direito consumir os produtos dos outros. É imoral fazer jus a uma coisa, mas é direito obter algo que não se mereceu. Os parasitas justificam moralmente a existência dos produtores, mas a existência dos parasitas é um fim em si – é mau lucrar com as próprias realizações, mas é bom lucrar com o sacrifício alheio. É mau criar a própria felicidade, mas é bom gozá-la quando o preço dela é o sangue dos outros’.

‘O seu código divide a humanidade em duas castas e lhes ordena que vivam segundo regras opostas: os que podem desejar qualquer coisa e os que não podem desejar nada; os escolhidos e os malditos; os carregadores e os carregados; os comedores e os comidos. Que padrão determina a sua casta? Que chave mestra lhes permite o ingresso na elite moral? A chave mestra é a falta de valor'”.

Passagem do livro de Ayn Rand – A Revolta de Atlas – vol. III

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