Conto: Berenice, a fazendeira

Berenice comia a galinha com raiva, babava, orgulhosa das gotas de óleo que sentia escorriam-lhe pela papada.

Gostava de ver suas mãos gordurentas e arrancava as partes da galinha morta com uma fúria assassina. Com os membros do animal morto em suas mãos abocanhava mordidas furiosas como quem faz a última refeição da vida. Sua gula era feroz como seus caninos afiados e cheios de carne morta.

Ela gargalhava com a boca cheia fazendo com que a comida voasse na face dos curiosos incautos.

Ela não tinha a pretensão de ser delicada, doce ou meiga. Nunca quis nada parecido. Sabia que sua natureza era feroz e assassina. Nada no mundo poderia se opor entre ela e seu maior prazer: desmembrar e comer um animal assassinado.

Às vezes ela se escondia na cozinha e com um prazer mórbido assistia a degola dos pássaros que tinham a infelicidade de terminarem seus dias ali. Seus olhos brilhavam quando ela via as enormes poças de sangue e ouvia o grito cruel dos animais instantes antes do assassinato.

Berenice sempre sonhava que seria cozinheira. A melhor profissão do mundo, ela pensava.

Chegara o dia em que conheceria a fazenda que seu pai comprara. Ela ficara triste, pois era sexta-feira e ela sabia que no sábado sua mãe gostava de preparar galinha para o almoço e perderia uma boa degola, mas Berenice sabia que o mundo não era perfeito e ela sempre soube que não era. Afinal como poderia ser justa a vida da galinha que nascia, comia, engordava e morria para servir de almoço para ela e sua família? Não, não era, Berenice sempre soube que a vida era injusta. Os fortes matavam os fracos. As galinhas morriam para servir à sua  vontade de vê-las morrendo para que assim lhe servissem aos olhos e à sua enorme barriga. E ela tinha que ir à fazenda, mesmo infeliz, para alegrar seu pai que ansiava para mostrar suas novas aquisições à sua mãe e à Berenice.

Berenice sempre que pensava na vida injusta das galinhas, ao invés de se comover pelas inúmeras galinhas assassinadas em sua cozinha, sorria e a apertava sua enorme pança, orgulhosa de quantas galinhas já tinha comido e dilacerado os membros.

Sua mãe agarrou-lhe a mão e gritou: – Vamos logo, Berenice. E não adianta fazer essa cara de coitada.

Berenice sabia que não adiantava, assim como não adiantava a galinha arregalar os pequenos olhinhos e gritar de dor, por isso, triste obedeceu.

Quando chegou à fazenda, não imaginou que seria o melhor dia de toda sua vida. Berenice amuada aceitou passear com o pai, que desejava mostrar para todos empregados sua filha gorducha e exibir-se para Berenice com sua bela fazenda. No passeio, juntos, eles puderam assistir ao assassinato cruento de um imenso porco sujo. Os urros do porco sofredor foram grotescos e o sangue esbanjou em uma proporção jamais vista. Berenice não se conteve e emocionada começou a chorar. Nunca tinha visto nada parecido. Queria morar para sempre na fazenda. Ela sabia agora o que queria ser quando crescer. Ela queria, mais do que tudo na vida, ser fazendeira. Cozinheira, que nada! – pensou.

Seu pai, impressionado com o choro de sua filha e querendo protegê-la, tapou-lhe os olhos. Berenice, sem pensar, mordeu a mão do pai, que cuidadosamente a escondeu no bolso. Ele assustado, olhou para Berenice e ela o encarou raivosa. Nesse instante, tudo fez sentido para ele, desde às mãos gordurentas de sua filha até às vezes em que foi pega escondida dentro da cozinha. Sim, ele agora compreendia que sua filha sentia um enorme prazer por morte e sangue, suas lágrimas, ele sabia, eram pura alegria. Envergonhado, pela crueldade infantil isenta de qualquer traço de remorso, ele se afastou em silêncio e a deixou aproveitar os últimos momentos do grande espetáculo.

Depois de observar o corpo morto do porco por longos minutos, Berenice, enfim, se satisfez, aproximou-se do pai e pegou em sua mão e lhe deu um grande sorriso. Seu pai, sem graça de ter pensado mal de sua doce criança, lhe sorriu de volta amorosamente. Ele, sabia Berenice, havia se tornado seu cúmplice.  Ela agora sempre acompanharia seu pai a fazenda e ele estranhamente já sabia disso. Cúmplices caminhavam silenciosamente, ela uma assassina sádica e fria e ele o pai dessa criança, que sabia tinha gosto por sangue e assassinato.

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