Conto: O silêncio da Rita

Rita não gostava muito de falar. Às vezes ela própria se impressionava com seu próprio silêncio. Ninguém poderia ficar tanto tempo sem nada dizer. Ninguém, pensava Rita impressionando-se com sua própria capacidade.

É claro que seu silêncio não era bem visto. Cansava de ouvir a frase: “O gato comeu sua língua” ou “Ela está falando com você, minha filha, responda a pergunta” ou até mesmo “Sua menina tem algum problema, Estela? Nunca ouvi a menina dizer nada” . Rita pouco ligava e já estava acostumada com o terror que seu silêncio afetava aos outros, mas a mãe de Rita, Estela, envergonhava-se, desculpava-se, dizia ser uma fase, às vezes, até admitia que Rita podia, sim, ter algum problema.

Um dia Rita estava sentada na escada de sua casa e, é claro, que sua mãe e seu pai não imaginavam que a menina ali estivesse e começaram a discutir sobre o “problema” de Rita. A mãe opinava para os médicos, o pai pelo mal da idade, a mãe dizia que podia ser um trauma, o pai descartava e assim a conversa seguia e seguia sem, é claro, chegar a lugar algum.

Rita ouviu tudo e pensou que dava muito trabalho ser diferente. Ninguém deixava, ela pensou intrigada. Rita percebeu que queriam que todos fossem iguais e que falassem igual e reagissem igual e que aquilo tudo era muito chato. Entristeceu-se de seus pais não valorizarem seu silêncio. Meu silêncio, ela pensou, tinha muito mais valor que qualquer palavra vã, desperdiçada.

Rita silenciava, pois só falava se achasse que realmente tinha algo a dizer. Para Rita, responder as perguntas idiotas que lhe faziam não tinha sentido algum, pois ou o questionador já sabia a resposta ou o questionador não queria mesmo ouvir a resposta. O que Rita diria ao questionador que perguntasse se ela estava bem? Se ela dissesse que não estava, que lhe incomodava o fato de não deixarem ela ser ela mesma? Ele se espantaria e pensaria mal da Rita. E se ela mentisse, dizendo estar bem, que valor teria aquela resposta e porque ele quereria ouvir, se fosse mentira? E se alguém se perguntasse se ela tinha visto a chuva? Ela poderia dizer que sim, mas que importaria isso, se realmente tinha chovido, qual era a relevância dela ter ou não ter visto a chuva. O questionador certamente não estava interessado na resposta. Por que o silêncio podia ser tão incômodo para as pessoas a ponto delas fazerem perguntas que já sabiam a resposta ou que não queriam ouvir a resposta? Era o que Rita queria saber.

Rita resolveu fazer um experimento para ver se paravam de lhe encher tanto a paciência. Depois de ouvir a discussão de seus pais, resolveu falar tudo o que lhe passava à mente. As pessoas queriam falar, então, teriam que aprender a ouvir! Pensou Rita, triunfante.

Na manhã seguinte, Rita começou seu experimento. “- Você quer café, Rita?” e ela respondeu: “- Não, o café da Cleuza é ruim” . A mãe de Rita achou graça. Rita ficou contente, talvez desse certo. Talvez ela estivesse errada todo o tempo. Talvez as pessoas quisessem mesmo saber a verdade. E assim, Rita seguiu o dia todo, as pessoas davam risada achando que Rita estivesse brincando ou talvez a achassem mesmo engraçada. É, elas não me conheciam, Rita pensou.  E ela não poderia culpá-los, afinal nunca tinha falado desse jeito antes.

A mãe de Rita, Estela, foi pegar sua pequena na escola e se encontrou com a mãe de um colega. A mãe de Rita estava louca para exibir para suas amigas sua filha falante. E soltou, tão logo Rita chegou: “- Rita, querida, cumprimente a mãe de seu colega, Marlene”. Rita disse educadamente: “Como vai a senhora? Passa bem?” . A mãe de Rita sorria extasiada. Marlene puxou Estela de lado e quis saber: “- Que milagre é esse, Estela?”. Estela respondeu orgulhosa: “- Eu não te falei que era uma fase, Marlene? Pois a fase passou” . A mãe de Rita não sossegou o facho  e quis se exibir mais um pouco: “- Rita, filhinha, conte a Marlene sobre seu dia na escola”. Rita contou a Marlene sobre seu dia na escola. Estela inflava de tanto orgulho da menina. Marlene não acreditava. Foi, então, que Marlene resolveu fazer mais uma pergunta a pobre garota: “- Me diga, Ritinha, você é amiga do meu filho?”. E Rita respondeu: “- Não, não sou amiga de ninguém”. O filho de Marlene puxou a mão da mãe e disse: “- Vamos para casa, mamãe”. Foi a deixa perfeita, Marlene envergonhada saiu imediatamente dali. Estela derrotada, ainda sem reação, pegou a Rita na mão e saiu de lá arrastando a garota.

No carro sua mãe quis saber: “- Por que você disse que não tem amigo, Rita?”. Rita achou graça da pergunta idiota da mãe: “- Ora, porque eu não tenho, mamãe”. Sua mãe inconformada respondeu: “- E você precisa dizer isso, Rita, justo para a Marlene? Da próxima vez invente alguma coisa qualquer, diga que é mais amiga das meninas, sei lá”. Rita inconformada retrucou: “- Mas isso seria mentira, mamãe”. Sua mãe deu risada: “- Não é mentira, se você se esquivar da resposta”. Rita ainda não se conformava: “- Mas se ela perguntou, ela queria saber a resposta”. Sua mãe retrucou: “- Não seja ingênua, Rita, ninguém quer saber a resposta”. Rita olhou sua mãe e disse: “- Então, eu estava certa de ficar quieta a maior parte do tempo. É verdade mesmo, não é, mamãe? As pessoas não querem mesmo saber a resposta”.

Estela caiu em si, mas não sabia o que dizer. Rita percebeu pelo olhar aflito da mãe que ela finalmente entendera o motivo do seu silêncio. Foi ali que Rita teve a resposta do seu experimento. Ela tinha passado a vida certa de que as pessoas não queriam saber a resposta, mas tinha resolvido dar uma chance para provar que estava errada, pois Rita sempre carregou uma esperança secreta de que as pessoas queriam realmente se comunicar, afinal qual o motivo para o silêncio ser tão incômodo para essas pessoas? Devia ser porque elas queriam sempre se comunicar e, às vezes, não podiam, pensava Rita esperançosa. Mas a verdade, não era sempre bela de se ver. Rita entendeu que as pessoas, ou a maior parte delas, pessoas como sua mãe e a Marlene, não queriam saber a resposta, não estavam interessadas na verdade, pois a mentira era melhor de ser ouvida. Percebeu também que as aparências são importantes, mesmo se fundadas em falsidade. Rita não gostou do que descobriu, suspirou fundo, olhou firme para sua mãe e disse: “- Nunca mais me incomode por causa do meu silêncio”. Sua mãe não sabia o que dizer a Rita e, por isso, também ficou quieta, ela não queria repetir como é a realidade que sua filha bem conhecia. Estela nunca mais falou, como antes falava, seu modo de compreender e apoiar sua filha foi o silêncio. Rita compreendeu e sorria para sua mãe do nada, um sorriso verdadeiro. Estela sabia que aquele sorriso valia ouro, assim como o silêncio de sua filha.

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2 respostas para Conto: O silêncio da Rita

  1. Nossa, posso dizer que acontece o mesmo comigo. TODOS reclamam por eu permanecer em silêncio a maior parte do tempo, principalmente quando o papo não me agrada, ou não acredito na forma que as outras pessoas pensam sobre algo. Pena que ninguém entende o silêncio como Estela entendeu ><

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