Conto: A alma de Carlota

Carlota era gordinha. Gordinha não… Ela era imensa!

Quem via apenas o tamanho  de Carlota a imaginava forte e até um pouco grosseira, mas Carlota era uma flor. A alma de Carlota era suave como os melhores perfumes, sua voz era mansa e delicada e seus gestos harmoniosos como os de uma bailarina.

Carlota sofria em silêncio, pois os mais desatentos e desavisados, a tratavam com rudeza e até com má educação, gritavam em desrespeito nomeando sua gordura de muitos nomes. A doce Carlota sofria em silêncio, derrotada, por não enxergarem sua alma.

Carlota começou a andar de cabeça baixa e quieta, quem sabe assim não lhe notavam a presença e ela podia, por alguns instantes, não existir. Mas seu tamanho não lhe dava tregua e logo escutava “ô gorda, ô bola”, para cá e para lá.

Nem a família de Carlota tinha a fina percepção de ver a bela flor que era Carlota e ainda queixavam-se para mãe da garota ser amuada. Sua Tia Marieta estufava o peito em reprovação: – “Não é por nada não, Irene, mas todos os gordinhos que eu conheço são simpáticos e falantes. Sua filha deve mesmo ter algum problema. Você já pensou em terapia?”.

Dona Irene virava os olhos sem graça, sorria em desculpa e mudava de assunto gentilmente. Ela, como sua filha, era doce e incapaz de fazer mal a uma mosca.

Dona Irene também era rechonchuda. O “mal” era da família, gostavam de dizer o povo da pequena cidade. Dona Irene, pura bondade, em solidariedade a sua própria filha, começou também a ficar mais quieta e cabisbaixa, na ilusão, de que se todos fossem quietos, ser quieto passaria a ser também normal.

Mas não adiantava! As grosserias persistiam agora contra mãe e filha. Eram adjetivos dos mais infames: duas bolas sem graça, “hipopótomas” mudas, obesas estranhas e por aí seguia.

Em um belo dia de sol, Irene e sua filha, Carlota, resolveram tomar sorvete com calda de caramelo, uma das paixões de mãe e filha, na Sorveteria da dona Esmeralda.

Lá chegando, Carlota e Irene escolheram os sabores das bolas de sorvete, a cobertura e confeitos com uma genialidade de combinação de sabores digna de um requintado chef  de cozinha sob o olhar de censura da dona da sorveteria, Esmeralda, uma perua para lá de esquelética, genético era seu problema com certeza, pois a desgraçada comia sorvete o dia inteiro sem parar.

Na hora de pagar, Dona Irene retirou da carteira o dinheiro com sua delicadeza e doçura. Dona Esmeralda não se conteve e disse: “- Vocês não deviam comer esse sorvete! Engorda, sabia? Por que não tomam apenas uma água. Água emagrece!”.

Carlota olhou para sua mãe e viu que seus olhos se encheram de lágrimas. Dona Irene tremia. Tinha sido a gota d’água. Carlota em uma atitude instintiva e instantânea de autodefesa pegou seu monumental sorvete e com vontade o atirou na barriga e nos braços da odiosa sorveteira. Dona Irene, satisfeita e orgulhosa de sua filha, imediatamente pegou seu belo sorvete e jogou com todo gosto do mundo na cara da azeda Esmeralda. Calmamente, Dona Irene pegou o valor dos sorvetes e o deixou no balcão da sorveteria. Esmeralda não sabia o que dizer e ficou ali, estatelada e muda.

Os fregueses da sorveteria explodiram em aplausos. Ao que parece a Dona Esmeralda orgulhava-se por alfinetar e envenenar ali e aqui todos eles. Não fosse a única sorveteria da cidade, não teria cliente algum.

A partir desse dia, uma força tomou conta das duas, e toda vez que eram ofendidas, revidavam na mesma moeda com vontade e prazer. Com o passar do tempo, ninguém mais ousou naquela pequena cidade mexer com uma ou outra. Elas passaram a ser respeitadas.

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2 respostas para Conto: A alma de Carlota

  1. Se todas as pessoas que sofrem algum tipo de preconceito fizessem o que Carlota e Dona Irene fizeram, acredito que tudo seria diferente. Eu particulamente gostei da atitude das duas *-* Parabéns Eli!!

  2. Exatamente. Só basta ter atitude e determinação, que as mudanças começam a ocorrer. Ótimo texto, como sempre. (:

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