Conto: Pinto

Valéria se contorcia toda. A coceira era por todo o corpo. Ela parecia uma lagartixa louca se remexendo toda. Ela sabia que era de puro nervoso, mas não podia evitar. Sua mãe sempre lhe dizia: “É psicológico, menina. Não dá bola que passa.” 

“Passa sim, passa mucho”, desdenhava Valéria em pensamento. Valéria sempre fora nervosa e sempre se coçou, mas isso nunca fora tão frequente. A coceira era tanta que deixava boas partes da sua pele em carne viva. Seus amigos viravam a cara com nojo. “Valéria é esquisita”, eles pensavam em silêncio.

Sua mãe, intrigada com a vizinha petulante que sugerira uma doença de pele contagiosa, levou Valéria ao dermatologista. Lá chegando o médico quis saber:

– Valéria, sua mãe me disse que sua pele está coçando e em carne viva. O que acontece?.

Médico besta. Era para isso que eu tinha ido até ele?”, pensei. Respirei fundo e disse:

– Pois é, Doutor, é para isso que estou aqui”.

Ele me olhou de um jeito engraçado e disse confiante:

– Vamos descobrir o mal que a aflige, minha filha.

A consulta seguiria tranquilamente, não fossem as interrupções da mãe de Valéra a todo tempo querendo saber se de alguma forma aquilo era contagioso. As respostas do médico dizendo que era cedo para afirmar, não a satisfaziam e, por isso, ela voltava a perguntar e perguntar. É claro que ela queria poder dizer que não contagioso à Gertrudes, nossa querida vizinha xereta e intrometida, que já proibira sua filha de ter qualquer contato com Valéria por precaução.

Logo no final da consulta o médico pegou nas mãos de Valéria e disse compadecido:

-Tudo vai ficar bem, minha filha.

A pomada que ele receitou era gosmenta. Nem preciso dizer que a mistura da pele seca e morta à pomada e à carne viva fizeram um cenário nada agradável aos olhos de quem quer que fosse. Foi assim que Valéria ganhou o apelido nada gentil de Pinto, dado com as honras do garoto mais chato e mandão da sala.

Era Pinto para cá, Pinto para lá e a coisa pegou. E o pior de tudo é que Valéria ficava nervosa com o apelido e a coceira vinha ainda mais forte. E, assim, Valéria entrou em um ciclo vicioso da pior categoria!

À noite em seu quarto Valéria chorava baixinho para o meu travesseiro e rezava para o seu Deus para que ela não precisasse nunca mais ir para escola, mas nada acontecia e lá ela ia, mais uma vez, contraída, retorcida e triste para o meu martírio. As poucas amigas que ela tinha viraram a cara quando o apelido pegou e ela percebia que eu era apontada entre risinhos e olhares maliciosos.

A situação na escola estava insustentável. Agora Valéria era alvo não apenas dos garotos e garotas da sua sala, mas da escola inteira, todos a conheciam pelo apelido indecoroso de Pinto. E o apelido ainda ganhou uma maior dimensão e passou a perseguir também fora dali e especialmente pelas garotas louras das aulas de balé que Valéria tinha todas as segundas e quartas. Valéria sabia que não poderia suportar muito tempo mais. Para o completo terror de Valéria seu nervoso era tanto que ela tinha se transformado em uma grande carne viva gosmenta, semelhante mesmo a um Pinto recém nascido.

Foi assim que Valéria entrou em uma depressão profunda e não tinha jeito de sua mãe tirá-la de casa. Preocupada, mais uma vez, levou sua pequena a dois médicos, ao dermatologista novamente e ao psiquiatra. O primeiro calmamente passou uma pomada ainda mais forte e garantiu a Valéria pegando, mais uma vez, tal como na primeira consulta, em suas mãos: – “Ficará tudo bem, minha filha”. Ao que Valéria reagiu com uma mordida das mais carnívoras na mão direita do médico que não compreendeu a braveza da menina. Ela sabia muito bem que aquela primeira pomada custara-lhe o apelido de Pinto e um trauma para vida toda. O médico histérico gritou contendo o sangue feroz com seu jaleco branco: – “Tire essa menina daqui”. A mãe de Valéria sem graça tirou rapidamente a menina de lá direto para o psiquiatra.

O psiquiatra antes de mais nada disse a mãe de Valéria:

– A senhora espera aqui fora.

Valéria já tinha gostado do psiquiatra. Valéria contou tudo ao médico que fazia perguntas pertinentes e anotações. Valéria sentiu-se pela primeira vez compreendida. No final da sessão, o psiquiatra chamou a mãe de Valéria e ordenou:

-Férias forçadas para sua menina, inclusive do balé.

– Mas o espetáculo da minha filha é no próximo sábado.

– Você me ouviu. Férias absolutas para sua menina.

Valéria queria beijar aquele médico. Alguém que finalmente tinha compreendido a tortura mental que Valéria vinha sendo submetida.

O médico chamou a mãe de canto e ordenou:

– Tire sua menina do balé.

– Mas por que Doutor, é um ótimo exercício e eu na idade dela adorava. Sabe eu podia ter sido bailarina profissional, se minha mãe me apoiasse como eu apoio minha filha.

-Tire sua menina do balé – repetiu.

– Por quê??? – gritou a mãe de Valéria injuriada.

– Veja bem – começou psiquiatra em voz baixa  – tudo começou por conta do espetáculo de balé. Valéria sabe das grandes expectativas da senhora e não queria decepcioná-la.

Dos olhos da mãe de Valéria lágrimas escorriam.

– Sua filha não gosta de balé, minha senhora, e só faz para agradá-la. Está na hora da senhora fazer algo por sua filha e deixá-la seguir suas próprias vontades. Você não tem ideia de como os pais influenciam seus filhos. Sua opinião é muito importante para sua filha, portanto, seja uma boa mãe e deixe sua filha ser mais leve e mais solta.

A mãe de Valéria agora soluçava. Valéria felizmente não vira e nem ouvira nada daquilo e esperava tranquilamente sua mãe na recepção lendo um gibi. O médico consolou sua mãe, dando o tempo necessário para que se acalmasse. No final, a mãe de Valéria também queria beijar o médico, agradecida.

Algumas semanas se passaram e a pele de Valéria já tinha voltado ao normal e o melhor é que foi sem a ajuda de nenhuma pomada gosmenta.

 

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Uma resposta para Conto: Pinto

  1. Como sempre seus contos são surpreendentes Eli *-*
    Muito interessante, e inclusive acho que muitas mães deveriam ir até um psiquiatra para perceberem que não devem “obrigar” as filhas a fazerem aquilo que não teve oportunidade de fazer. Quem sabe assim, muitas deixassem de sofrer e receberem apelidos :s

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