Conto: A injustiça no jardim de infância

Ela estava sentada na aula de aula inquieta. Tinha muito o que dizer, mas sabia que tinham poucos para escutá-la.

Ela levantava afoita o pequeno bracinho e balançava-o para chamar a atenção, mas a professora resoluta não queria lhe dar ouvidos, afinal, pensava a professora intransigente, todos tinham que ter chance de falar.

E lá estava ela a insistir de novo, segurando-se para não levantar da cadeira e balançando seus bracinhos como louca. A Professora olhava de lado para não lhe dar atenção. Venceria pelo cansaço, pensava a Professora insistentemente.

Mas a pequena garota aparentemente não se cansava e lá se iam seus bracinhos se mexendo para chamar a atenção.

E a Professora nada.

A menina, então, sentindo-se injustiçada, deu um grito:

– Ei!!!

A Professora olhou-a com ódio. A menina já tinha visto às vezes olhar de ódio e aquele definitivamente era um olhar de ódio.

A Professora de má vontade azedou:

– O que quer, menina?

– Estou há muito tempo pedindo para falar com a senhora e a senhora finge não me ver. A senhora perguntou se alguém queria dizer alguma coisa sobre o texto que lemos e eu quero dizer.

Mas a Professora não quis dar o braço a torcer:

– Se você tivesse levantado sua mão como uma garota educada, eu teria lhe dado permissão para falar. Com gritos, menina, você não tem direito de dizer nada.

Naquele dia a garota compreendeu injustiça e a mentira. Compreendeu que a Professora cismara que não queria lhe ouvir e arranjaria qualquer desculpa para não ouvi-la. Compreendeu que a Professora não era justa, que mentia e que também sentia ódio. Compreendeu que a Professora era mais forte e que ela não poderia fazer nada para fazer sua Professora mudar de ideia. Compreendeu que tinha sido vencida. Compreendeu que sua Professora era também sua inimiga e jurou nunca mais dizer nada naquela sala de aula. Ninguém ali merecia ouvi-la.

A Professora naquele dia compreendeu que ela tinha buscado fazer a garota entender, ignorando-a, que não teria chances de falar, mas sua sutileza não tinha adiantado, então uma medida de força se fez necessária, ela precisou mostrar que era ela quem mandava. Precisou mostrar que a garota não falaria nunca a não ser que ela quisesse. Sentia um pouco de remorso, pois sabia que a garota era a melhor aluna da classe, por outro lado, sentia-se também fortalecida ao pensar que alguém tinha que mostrar àquela pirralha que o mundo não era um mar de rosas, alguém tinha que fazer ela entender que ela não era a maioral, que ela não podia falar quando bem quisesse, afinal, os outros coleguinhas também tinham o direito de se expressar, ela não podia querer sempre monopolizar a atenção, ela não podia querer ser melhor que os outros, ela era igual a todo mundo, todos tinham direitos iguais, gritava a Professora consigo mesma histérica.

Naquele momento nem a Professora, nem a garota compreenderam a verdade maior que havia sido revelada. A verdade que ninguém é igual a ninguém. Existem aqueles que gostam de falar e aqueles que preferem ficar quietos. Existem aqueles que sentem prazer na aula e outros que preferem dormir. Existem aqueles que fazem merecer sua participação na aula e outros que nada fazem para merecê-la.  O mundo não é feito de pessoas iguais. O mundo é feito por pessoas diferentes e cada um deve lutar por seu espaço e conquistá-lo.

A pequena garota fez por merecer seu espaço, era a melhor aluna, tinha o direito de falar, mas sua professora preferiu o caminho da injustiça. Preferiu querer dizer à pequena que todo o esforço dela não tinha valor nenhum, que toda sua luta para ter o destaque nas aulas era em vão, que, no final do dia, todos teriam o mesmo espaço que ela. Seu mérito não devia ser compensado, glorificado, exibido a todos. Não, de jeito nenhum. Ela não merecia nada. Ela não merecia os louros da vitória. Ela era igual a todo mundo, nem pior, nem melhor. E com isso perpetrava no Jardim da Infância a maior das injustiças. A injustiça de tirar o mérito de quem merece, de privilegiar quem nada fez por merecer, de explorar aquele que fez jus ao seu lugar ao sol, de presentear quem não tem direito, de dizer a maior das mentiras que todos são iguais e tem os mesmos direitos.

Queria estar ao lado da garota nesse instante e dizer-lhe olhando-a nos olhos com carinho: –  Minha pequena, isso é uma grande mentira. O mérito é seu e você deve ser reconhecida por isso. Nunca deixem roubar-lhe aquilo que conquistou tão arduamente com fundamento na enorme falácia de quem são todos iguais. Não são, o que é seu é seu, e você tem o direito de usufruir dos seus ganhos para si. Não é obrigada a dar o que é seu aos outros, só porque eles não tem mérito algum, só porque supostamente eles teriam os mesmos direitos que você. Isso é mentira. Não acredite nisso ou você será escravizada toda sua vida e seus senhores serão aqueles desprovidos de qualquer valor, de qualquer mérito, de qualquer conquista. Nunca acredite na maior mentira que eles querem contar que é a de que todos são iguais. Eles só dirão isso, minha pequena, para que você os sustente. Você não tem obrigação nenhuma de sustentá-los. Nunca acredite nessa grande mentira. Entenda você é melhor que os outros. Você fez por merecer. E não há nenhum problema nisso, muito pelo contrário seu valor deveria ser comemorado, exaltado, glorificado, porém eles nunca farão isso, eles a culparão, como sua Professora a culpou, por seu próprio talento, eles quererão fazer você sentir a culpa, para que possa ser manipulada e explorada, por eles que não tem valor nenhum. Não caia nessa cilada. Entenda, eles não têm direito de escravizá-la e você tem todo o direito de colher tudo aquilo que conquistou.

Mas eu não estou, só posso mesmo escrever e que minhas palavras escritas possam se perpetuar ao longo do tempo para que chegue um dia nos ouvidos dessa pequena garota, talvez já a encontrem moça, talvez adulta ou idosa. Eu quero libertá-la, antes tarde do que nunca, das algemas que lhe colocaram quando você era apenas uma pequena criança.

 

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Uma resposta para Conto: A injustiça no jardim de infância

  1. Eli; faz tempo que não comento mas não esqueci não ein? Alias, os contos nunca posso deixar de comentar, afinal sempre gosto.

    É triste quando as pessoas que deveriam são valorizadas pelo que são e pelo que fazem, mas eu pelo menos acredito que todas as algemas serão quebradas, como você disse, antes tarde do que nunca, e pessoas como essa garotinha ainda serão grandes exemplos né?

    Beijos.

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