Conto: A pequena gorda e rosada

Eulália chegou olhava de canto de olho sua pequena irmã, uma linda bebê rosada e gorda. Olhava com desdém toda trupe de adultos babões em volta de sua pequena irmã. Os adultos eram idiotas, pensava.

A pequena agora tinha toda a atenção do mundo e a Eulália, envergonhada de seu tamanho no auge dos seus cinco anos, provavelmente desproporcional e colossal aos olhares de todos adultos do mundo, utilizava de suas pequenas artimanhas para ganhar também um pouco de atenção, eram choros, dores, vontades, enfim, de tudo um pouco. Contudo, quando, enfim, Eulália estava prestes a ganhar a atenção merecida, quando finalmente teria alguns minutinhos dos cuidados dos seus pais, a doce bebê gorda e rosada abria seu berreiro e Eulália era largada em um canto tal como um trapo sujo, rasgado e velho.

Eulália resolveu emagrecer. Suas costelas seriam o contraste ideal as bochechas gordas e rosadas  de sua pequena irmã. Eulália parou de comer e transformou-se em um esqueletinho. Nem isso adiantara. Na verdade fora ainda pior. Depois disso, Eulália escondida pelos cantos da casa começou a escutar sua mãe fofocar para suas amigas que Eulália era problemática e chata enquanto sua irmã era saudável e doce.

Eulália pensou em começar a fazer xixi na cama, mas lembrou-se de como sua mãe a qualificara como problemática, então, nada fez e resolveu voltar ao normal. Porém, não desistiria fácil do amor de seus pais. Lutaria por ele com todas suas forças, afinal era o que Eulália tinha de mais precioso no mundo.

Eulália consumia-se com sua raiva, durante todo o dia apenas gracejos, festinhas, beijinhos e agrados a sua irmã gorda e rosada, passara a roer a unha até alcançar a carne e a dor. Ninguém nem sequer notara.

Eulália tinha um plano cruel. Ela pretendia se aproximar de sua irmã pequena e indefesa para lhe morder as bochechas rosadas, para que ficassem feias e seus pais parassem de lhe dar tanta atenção.

Tentou várias vezes aproximar-se da bebê, mas sua mãe e seu pai não deixavam, afastavam Eulália como a um rato imundo. A bebê era sagrada e Eulália já não era nada. Eulália não podia encostar sequer seu dedinho na bebê.

Finalmente, seus pais resolveram sair à noite para jantar e deixaram a bebê com uma babá. Certamente, Eulália teria mais chances de concluir seu plano com a babá. Aproveitando-se da rápida saída da babá do quarto da pequena. Eulália correu para lá. Aproximou-se lentamente do pequeno berço tal como um felino partindo para o ataque. Aproximou-se mais e mais. Finalmente estava do lado do berço e pode ver dormindo a linda e inocente bebê gorda e rosada. Eulália estava pronta para o ataque, seus dentes não eram afiados, mas fariam o estrago necessário.

Eulália, então, olhou sua pequena irmã e alguma coisa na sua pele rosada, nas suas bochechas gordas, no seu pequeno nariz e em suas mãozinhas gordas e miúdas fizeram com que Eulália não tivesse vontade de fazer qualquer maldade contra sua pequena irmã. Pelo contrário, Eulália apaixonara-se pela pequena, tal como os adultos babões.  Minha irmã era mesmo a bebê mais linda do mundo, pensava enfeitiçada.

A babá chegou, olhou os olhinhos encantados de Eulália e achou graça de todas instruções neuróticas de sua patroa para que Eulália não chegasse perto da pequena. Eulália passou as demais horas toda zelosa com sua pequena irmã, beijava-lhe, fazia os mais ternos carinhos, fazia vozes e brincadeiras que faziam a bebê derreter-se por Eulália.

Sua mãe chegou bem no meio desses inúmeros gracejos, seu primeiro pensamento foi o de voar para cima de Eulália e arrancar-lhe a bebê do braço e depois dar a maior bronca do mundo na besta da babá. Porém, alguma coisa no jeito de como as duas se olhavam, de como a bebê gargalhava com Eulália, de como se encantavam uma com a outra, fizeram com que sua mãe nada fizesse e apenas olhasse admirada.

Sua mãe, então, olhou para seu marido e começou a rir e também a chorar. Seu marido também abriu um belo sorriso. Eulália os viu felizes e riu também. A bebê gargalhava. E a babá na sua simplicidade também ria, ria de como aqueles pais puderam ser tão idiotas, de como puderam achar que afastar Eulália do caminho poderia ser uma solução, de como não buscaram que as duas se entendessem, de como podiam ter tão pouco traquejo social, tão pouco entendimento da vida.

Na saída, os pais agradeceram a babá milagreira. Ela gabou-se dos elogios que recebeu. Beijou a pequena Eulália e a olhou profundamente. Pelos olhos da babá, Eulália soube que ela tinha sido a verdadeira heroína da noite.

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Uma resposta para Conto: A pequena gorda e rosada

  1. Eli;
    Não sei porque, já imaginei que o final não seria muito diferente do que de fato aconteceu, e mais uma vez algo para se pensar, até porque, quando todos possuem um sentimento bom por alguém é porque essa pessoa realmente tem algo em especial, e que também pode despertar esse sentimento, não é mesmo?

    Beijos

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