Conto: Bárbara, escrava

Ela olhava para sua mão aflita… As primeiras rugas e manchas haviam surgido em sua mão. Mãos de uma velha, pensava desolada.

A beleza tinha sido tudo na vida de Bárbara, fora a beleza a responsável por sua popularidade no colégio, depois foi por sua beleza que se casou, também por sua beleza que tinha a adoração de seu marido. Sempre fora a beleza que lhe abrira portas, era por conta da sua beleza que os homens viravam o pescoço para vê-la passar ou que se derretiam em gentilezas. A beleza era fazia tão profundamente parte de Bárbara que ela não saberia não ser bela.

Quem era Bárbara? Uma bela menina, depois uma bela moça e depois uma bela mulher. Não existia uma bela velha. Bárbara estava frita. Quem ela seria?

Bárbara desesperada, desespero tamanho que só sente e entende quem quase perdeu sua identidade, recorria a todos tratamentos estéticos, frequentava clínicas de beleza com a mesma devoção de uma beata à sua igreja, era figurinha carimbada nos consultórios de dermatologistas e não havia um cirurgião plástico na cidade que não lhe conhecesse pelo primeiro nome.

O marido de Bárbara insistia no exagero, sempre cobria Bárbara de elogios e dizia que a amaria para sempre e de qualquer jeito. Bárbara sabia que aquela era uma grande mentira. Saberia ele?, Bárbara pensava ainda mais aflita.

Suas amigas sentia riram por suas costas quando notaram as rugas nas mãos de Bárbara. Bárbara sentia o prazer no comentário venenoso de sua suposta melhor amiga: – Bárbara, querida, acho que já te falei do Dr. Hélio, não? Ele é ótimo em remover essas manchas senis. 

Bárbara ao ouvir aquilo sentiu seu rosto inteiro corar, a temperatura da pele subira e começara instintivamente a suar. Seus olhos não conseguiram disfarçar tamanho vexame. A amiga, é claro, não deixou por pouco: – Não precisa corar sua boba. Uma hora ou outra todas nós chegaremos lá. 

Após dizer isso, todas as amigas riram extasiadas não tanto pela piada, mas pelo vexame declarado e ululante de Bárbara.

Bárbara não achou ruim com as amigas. Bárbara sempre soube que ela era sua beleza, sua beleza era ela. Nada havia em Bárbara a não ser sua beleza. Ela sabia que no instante que ela acabasse, acabaria também a vida, tal como ela concebera até hoje, acabaria seu casamento, suas amizades, tudo desmoronaria em um mar de manchas senis e rugas horríveis.

Alucinada, Bárbara gemia e chorava no chuveiro. Ela sabia que ninguém valorizaria seu drama. Sempre lhe disseram que beleza não põe mesa, que a beleza um dia acaba, e tantas outras frases do tipo, mas nunca imaginou que, de fato, esse dia chegaria.

Bárbara descobriu no chuveiro com as lágrimas que escorriam ralo abaixo a verdade que havia até então ignorado: Bárbara não podia envelhecer.

Bárbara compreendeu com uma cumplicidade doente todas as jovens e belas atrizes que morreram na flor da idade e que eram, como ela, simplesmente belas. Bárbara sabia agora, o que elas descobriram.

E foi assim que Bárbara vestiu sua melhor roupa, colocou sua melhor maquiagem e acelerou seu dó nas curvas da estrada de Santos.

Bárbara morreu linda e deformada. Bárbara, escrava da sua beleza.

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Uma resposta para Conto: Bárbara, escrava

  1. Seria bom ler seu conto e saber que isso acontece apenas nas histórias, mas infelizmente não é assim né Eli? Muitas pessoas não aceitam as mudanças e acabam sendo escravas, assim como Bárbara.

    Parabéns pelo conto *-* E continue escrevendo mais desses.

    Beijos e sucesso!!

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