Crítica ao forte, compaixão aos fracos

Não parecia justo tanto julgamento, não parecia justo a exposição de uma opinião de maneira tão ferina, ainda que feita por argumentos fortes e convincentes. Há um ditado péssimo, provavelmente na época em que chutar animais era concebível, de qualquer forma, lá vai: não se chuta cachorro morto…

Talvez esteja implícito nesse ditado o sentimento de pena, pena por quem é coitado, por quem não reage por qualquer falha de personalidade ou por quem não reage porque não consegue. Eu digo: escolha seus oponentes à sua própria altura, alguém com habilidade  de responder a cada crítica sua com extrema aptidão e argúcia e com força e honra para fazer questão de retribuir sua crítica.

Não bata em quem não revida ou não bata em quem não consegue responder na mesma moeda. Sim, eu concordo com você, a pena é uma droga, mas ela foi feita para proteger os cuidados que já estão no chão. Para que e porque chutá-los, eu lhe pergunto? Se eles não conseguem responder, que glória há nisso? Qual o debate procura? Afirmo que não conseguirá nenhum debate revigorante, estará chutando cachorro morto. Só se for um sádico poderá ter alguma sorte de prazer, isso eu afirmo.

Gonçalves Dias no belíssimo poema Juca Pirama mostra que o guerreiro Timbira forte não admira a oposição de guerreiro herói, pouco lhe interessa a carne de um fraco ( – Mentiste, que um Tupi não chora nunca, 
E tu choraste!… parte; não queremos com carne vil enfraquecer os fortes).

Nietzsche (no livro Aurora – Reflexões sobre os preconceitos morais) também percebia isso: “Entre os selvagens sente-se com um arrepio moral ser compadecido: isto seria a prova de que se carece de toda virtude. Compadecer-se de alguém equivale a desprezar; não se quer ver sofrer a um miserável; isto não proporciona nenhum gozo. Ver sofrer, pelo contrário, a um inimigo que se considera igual em altivez, e que resiste à tortura e, em geral, ver sofrer a todo ser que não quer decidir-se a evocar compaixão, quer dizer, a humilhação mais vergonhosa e mais profunda, é o gozo dos gozos; a alma do selvagem ali se edifica ali até à admiração: acaba pro matar um bravo, quando está em seu poder, rendendo-lhe, a ele, o inflexível, as últimas homenagens. Se este houvesse gemido, se o rosto tivesse perdido sua expressão de frio desdém, se se tivesse mostrado digno de desprezo – então teria podido continuar vivendo como um cão – não teria então excitado a altivez do espectador, e a compaixão substituiria a admiração.”

Portanto, escolha suas vítimas, critique a quem admira e responda as críticas de quem também vale sua admiração.

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