Eu não tenho a resposta…

Eu quero começar dizendo que eu não tenho a resposta. Talvez, afinal, ninguém tenha. A perfeição que almejamos é uma clássica utopia. Ainda que o mundo perfeito não seja possível, a verdade é que sinto que tem algo de muito errado no mundo em que vivemos. Eu sinto uma enorme falta de vida. Sim, falta vida. Tirando uma rara minoria sábia que entende que está aqui para viver, o que vejo são milhões de formiguinhas desorientadas, perdidas de seu formigueiro.

 

As pessoas vivem automática e roboticamente vidas insossas, elegem para sua vida uma série de deveres, necessidades e até sonhos que não são seus. A busca pela segurança é uma preocupação forte do nosso tempo e o maior objetivo da grande massa perdida. Mas por que essa obsessão pela segurança? Se a vida é única, preciosa e esplendorosa, como nosso maior foco pode ser nos protegermos de viver? Vale tudo mesmo por uma casa própria? Vale mesmo não arriscarmos nada em nome de uma velhice tranquila, nem nosso sonho mais querido? É só mesmo quando estivermos velhos que nos daremos a chance merecida de sermos felizes, livres para fazermos aquilo que queremos? O que é isso??? Só eu que estou chocada?

 

Os antigos gregos tinham outra forma de compreender a vida. Eles sabiam que a vida era para ser vivida prazerosamente, preferiam uma vida curta e marcante a uma vida longa e monótona. Em sua sabedoria eles desfrutavam verdadeiramente da vida, essa era sua religião. Não viviam voltados para o dever, tampouco cercavam-se com tanta segurança, deixavam a vida penetrar-lhes até a última gota de sangue. O homem era o centro desse mundo helênico que transbordava vida. A beleza, a música, a arte em toda sua plenitude com seus grandes escultores, poetas e artistas dos mais variados, fazem até hoje nossos olhos ainda se encherem de lágrimas.

 

Nietzsche[1]  que estudou esse povo com profundidade descreveu sua filosofia: “o melhor, em primeiro lugar, é não ser, em segundo lugar é morrer em breve”. A vida para os gregos por isso era para ser desfrutada ao máximo enquanto existisse. Eles compreendiam a magnitude da morte. A morte lhes dava a exata dimensão de que cada dia deveria ser desfrutado da melhor forma possível e que sua existência só seria digna de ser lembrada se vivessem intensa e apaixonadamente, buscando alegria, beleza, inteligência, conhecimento e conquistar aquilo que realmente queriam. É exatamente assim que viviam. Que delícia deveria ser viver a vida até suas entranhas mais profundas…

 

Hoje o valor exaltado pela segurança torna a vida mais cinza, mais sem graça e certamente muito mais chata. Perdemos tanto com essa troca. Perdemos vida. Hoje o desfrute é artigo raro, de luxo e visto injustamente como leviano. Obrigações e obrigações inúteis são lançadas exigindo o que temos de mais valioso para executá-las: nosso tempo. A arte hoje é descartável, assim como nossos ícones. Não me olhe assim. Faz parte do mundo que escolhemos viver. Afinal, em um mundo em que as pessoas vivem suas vidas sem prazer, em troca da tão enaltecida segurança, que arte poderia agradar? Somente aquela que aliena, que retira seus olhos da realidade, aquela que amortece a dor da sua rotina degradante, aquela que não o deixa pensar.

 

Como eu disse no início do texto, eu não tenho a resposta. Não sei como viemos parar aqui. Só sinto em meu âmago que tem algo de muito errado nessa forma de vida que escolhemos, em que aquilo que temos de mais valioso, que é o tempo, é o artigo mais desperdiçado e violentado. Pode ser porque não tenhamos ainda entendido a preciosidade do tempo. Pode ser porque estamos correndo demais para pensar. Pode ser porque nos distanciamos demais da vida e da sua realidade. Não sei mesmo. De qualquer forma, é muito triste pensar que somente na velhice as pessoas poderão gozar de um pouco de liberdade, mas, então, já lhes restará tão pouco tempo.

 

Eu queria de entender a lógica do nosso mundo, mas quanto mais em penso menos compreendo. Talvez não tenha mesmo qualquer lógica. Eu só sei que falta vida, no sentido pleno. E isso nós podemos mudar. É só não esperar a velhice para viver e ser quem você deveria ter sido.

 


[1] A visão dionísica do mundo e outros textos de juventude, tradução Marcos Sinésio Pereira Fernandes e Maria Cristina dos Santos de Souza, Revisão da tradução Marco Casanova, Ed. Martins Fontes, São Paulo, 2005, p. 15 e s.

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