Conto: Morte de uma barata

Parecia incrível que tivesse passado tão depressa, pensava Isabela. A vida tinha sido rápida demais. De alguma forma louca Isabela sempre imaginou que seu destino seria grandioso. Ela seria alguém. Não simplesmente alguém, mas alguém muito importante. Alguém que todos saberiam quem é. Alguém que as pessoas admirariam. Alguém que fosse um ícone. Porque não um símbolo de perfeição?

Mas nada tinha saído do jeito que Isabela imaginara. Isabela sempre fora muito linda, mas o tempo levou sua beleza em suas teias. A carreira com atriz nunca tinha realmente decolado. Tinha feito poucos anúncios para televisão e nem nesses conseguira destaque. Casou-se com um homem rico, pois achou que de alguma forma a riqueza bastaria e talvez também de alguma forma o dinheiro poderia ser a solução. Um golpe do destino levou a riqueza do seu marido e sem dinheiro a separação foi inevitável.

Agora Isabela repensava toda sua vida olhando perdida para o sofá de couro rasgado sentada na cadeira de praia que tinha em sua sala, a única de sua pequena sala. Tudo que ela tinha era aquele apartamento minúsculo no minhocão.  Nada parecia fazer sentido, ela sentia em seu coração que tinha vivido uma vida que não era sua, uma vida de outra pessoa, ela tinha certo em seu coração que seu destino era outro. Estivera errada? A certeza de que tinha nascido para brilhar parecia agora um sonho distante.

Sentia com as mãos a pele enrugada do rosto. Desejava a todo custo acordar como se sua vida fosse um pesadelo. O cigarro queimava em suas mãos e ela já não tragava, a cinza caia no chão e ela não se importava, nada do que ela tinha era importante, nada que ela tinha feito tinha alguma importância, sua vida não tinha significado algum. Ela era como uma formiga. Podia ser simplesmente esmagada. Sua vida, como a de muitos, não tinha importância alguma. Não tinha conquistado nada. Não tinha vivido uma vida conforme sua vontade. Tinha vivido uma sombra, um nada, repleta de tempos e tempos inúteis que não precisavam existir.

Sua vista estava agora cansada e ela já não sentia muito bem as pernas. Mal enxergava, mas, de verdade, o que havia ali para enxergar? Tudo estava velho, sujo e vazio. Sentia na garganta um profundo desgosto, quase uma náusea, o tempo que perdia e o que agora pensava, tudo era inútil. Ela não servia para nada, seu pensamento não mudaria nada, sua vida continuaria insignificante, não havia redenção. Nada havia a fazer. Ela também nunca fizera nada. De verdade, poucos fizeram alguma coisa. Poucos serviram para alguma coisa.  O mundo estava repleto de formigas. Não, estava repleto de baratas. Repugnantes baratas. O cigarro caiu da sua mão e uma barata subiu cautelosamente pela cadeira e entrou dentro da boca da velha senhora que já não estava mais ali. Morreu sem nunca precisar ter nascido.

 

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Uma resposta para Conto: Morte de uma barata

  1. Adorei seu conto, Eliane. É uma experiência única para o leitor quando o escritor consegue, com uma linguagem poética e uma abordagem imparcial, despertar reflexões sem impor ideias. Em seu conto, podemos refletir sobre o sentido que procuramos em nossas vidas. O que seria uma existência que valeu a pena? Aquela repleta de situações tiradas das “cartilhas da felicidade”, que nos impõem conceitos e dão grande importância ao contentamento do ego, ou aquela permeada por singelos momentos de uma felicidade perceptível apenas por quem a sente?

    Não foi nada disso o que você pensou quando escreveu seu conto? Isso pouco importa. Como eu disse, a leitura justamente se torna incrível quando dá margem a um leque de reflexões, inclusive as que nem passaram pela cabeça do autor.

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