O mais importante é que estamos vivos!

“Nós somos apenas anjos, pouco sabemos dessa charada indecifrável a que vocês chamam de natureza humana, mas falando com franqueza, não vemos como irá resultar satisfatória a segunda experiência quando a primeira acabou no estendal de misérias que temos diante dos olhos, em nossa sincera opinião de anjos, para resumir, e considerando as provas dadas, os seres humanos não merecem a vida, Em verdade, vocês acham que os homens não merecem viver, perguntou caim, alvoroçado, Não foi isso que dissemos, o que dissemos, e repetimos, é que os seres humanos, à vista da maneira como se têm comportado ao longo dos tempos conhecidos , não merecem a vida com tudo aquilo que, apesar dos seus lados negros, que são muitos, ela tem de belo, de grande, de maravilhoso, respondeu um dos anjos, Portanto, dizer uma coisa não é dizer a outra, acrescentou o segundo anjo, Se não é o mesmo, é quase, insistiu caim, Será, mas a diferença está nesse quase, e ela é enorme, Que eu saiba, nós nunca nos perguntámos aqui se merecíamos ou não a vida, disse caim, Se o tivessem pensado, talvez não se encontrassem na iminência de desaparecer da face da terra, Não vale a pena chorar, não se irá perder muito, respondeu caim dando voz ao seu sombrio pessimismo nascido e formado em sucessivas viagens aos horrores do passado e do futuro, se as crianças que em sodoma morreram queimadas não tivessem nascido, não teriam tido que soltar aqueles gritos que eu ouvi enquanto o fogo e o enxofre iam caindo do céu sobre as suas cabeças inocentes, A culpa tiveram-na os pais, disse um dos anjos, Não era razão que os filhos tivessem de padecer por ela, O erro é crer que a culpa terá de ser entendida da mesma maneira por deus e pelos homens, disse um dos anjos, No caso de sodoma alguém a teve, e esse foi um deus absurdamente apressado que não quis perder tempo a apartar para o castigo somente aqueles que, segundo os seus critérios, andavam a praticar o mal, além disso, anjos, onde é que nasceu essa peregrina ideia de que deus, só por ser deus, deva governar a vida íntima dos seus crentes, estabelecendo regras, proibições, interditos e outras patranhas do mesmo calibre, perguntou caim, Isso não sabemos, disse um dos anjos, Destas coisas, o que nos dizem é quase nada”. (Trecho extraído do livro “Caim” de José Saramago)

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