Conto: O despertar

Era loucura fazer aquilo. Do alto eu olhava o precipício e tentava entender como tinha chegado ali. E a dura verdade é que eu não sabia. Alguma coisa tinha caído e formado uma pequena bola de neve que foi crescendo e crescendo até que me fez acreditar que não havia mais saída. Haveria? O desespero possuíra meus dias. O sol para mim há tempos tinha deixado de brilhar. Tempo demais. As estrelas do céu eu não saberia dizer. Nossa, como fazia tempo que eu não via o céu, o colorido das flores, seu perfume, eu tinha me esquecido de tudo. Eu não sei como tudo perdeu a graça e ficou tão cinza. Eu não sabia em que estrada eu tinha me perdido. Não saberia dizer como a alegria tinha fugido de mim e nem como meus olhos se tornaram tão fundos e secos. Eu não sabia onde estavam meus amigos e nem se eles existiam. Houve um tempo em que eu era muito popular, vivia rodeado, preenchido. E agora só o vazio do que nunca teve importância invadia minha alma. O que se perdeu em mim? Como eu poderia voltar a ser tão leviano? Como eu poderia cegar-me novamente? O que eu tinha que fazer para encontrar outra saída? Eu sabia que tinha gente que era feliz, gente que sorria de verdade só por uma flor, uma pequena e insignificante flor, gente mesmo muito alegre, de bem com a vida, quase boba, que ri e chora sem motivo. Eu sabia, pois eu fui assim. E hoje o que tinha sobrado? Já não saía da cama. E para que haveria de sair? Era tudo igual, monotonamente igual, as mesmas conversas, os mesmos programas, a mesma rotina, as mesmas pessoas, os mesmos dilemas, o mesmo mundo. Sinceramente que graça tinha? O mundo para mim hoje tornara-se idiota, repleto de pessoas idiotas, inclusive eu, o idiota, talvez o maior idiota de todos, aquele que não sabe mais desfrutar a vida, aquele cuja boca amaldiçoada azeda o fruto bom e doce, o pessimista, aquele que não sabe sorrir. É triste, talvez digno de pena, mas a alegria dos outros para mim era idiota, não me emocionava mais com nada, não conseguia, tornara-me uma pedra, dura, apática e desprezível. Vejo o mundo todo maquiado para enganar os idiotas, escuto o sorriso agudo deles e tenho vontade de vomitar. Todos me irritam e com que facilidade. Eu já não pertenço a esse mundo. Preciso ir e com urgência. Nada mais me anima. Só hoje eu me animei com a ideia da morte, do fim dessa tortura. Eu achei que seria uma grande alegria para mim morrer, deixar de lado meus dias longos e cinzentos, uma vida inteira pela frente que parecia não ter fim. A ideia de que apenas segundos me restavam animou-me quase como uma droga. Rodopiou dentro do meu corpo um frenesi que me fez gargalhar. Tive uma súbita vontade de aproveitar esses parcos segundos e dançar. E dancei, como dancei. Gritei ao mundo feliz, vivo. Olhei para baixo e desisti. Descobri que ainda estava vivo, vivo de verdade. A profundeza do precipício tinha me despertado.

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