CONTO: É PROIBIDO

Tinha uma porta enorme, pesada, de madeira maciça. Ela vivia trancada.
– Ninguém pode entrar lá – dizia o padre mandão.
O pequeno guri até salivava com vontade de adentrar naquela portona. Sua imaginação rodopiava. O que teria lá? Será que tem um monte de brinquedos e doces? Será que é uma passagem secreta para o tal paraíso que todo mundo tanto fala? Será que é um lugar onde os padres se divertem longe da gente fazendo tudo que proíbem? O que será? O que será?
Os olhos do pequeno brilhavam só de pensar no que tinha atrás daquela porta velha e pesada.
Todo dia na hora do intervalo ele passava sentado em um banco que tinha na frente da porta proibida. Lá vagarosamente mordiscava seu sanduíche em exatos trinta minutos, só imaginando o segredo que a porta escondia.
Nas férias do internato o pequeno guri contava aos seus pais coisas que imaginava que tinham atrás da porta proibida.
– Sabem de uma coisa? Pode mesmo muito bem ter um monte de doces e brinquedos ali. Os padres não gostam que a gente se desvie, é o que costumam dizer para gente. Por isso eles confiscam um monte de coisa da gente. Já vi eles arrancarem um chiclete dentro da boca do Julinho. Acreditam? Tem que haver algum lugar onde eles guardam tudo isso. Não jogam no lixo, não! Devem guardar tudo atrás daquela portona. Que outros motivos teriam para proibir a gente de ir lá?
Os pais olhavam de lado, suspiravam e folheavam o jornal. Às vezes diziam algo como: “Ai, Juquinha”, “Tenha dó, Juquinha” ou simplesmente “Quanta imaginação! Deve ter é um monte de coisa velha que ninguém quer mais”. Julinho desdenhava da ignorância de seus pais:
– Se fosse isso por que eles proibiriam?
-Para não bagunçarem. Só por isso. Ora essa!- retrucavam seus pais impacientes.
Juquinha tinha pensado muito a respeito do assunto e chegara a conclusão de que se era proibido e escondido era porque era bom demais. Afinal, analisava com toda cautela do auge dos seus cinco anos: Se fosse só proibido podia ser perigoso. Se fosse só escondido podia ser apenas um segredo. Só se proíbe e se esconde o que é bom. Tinham que ser doces, pensava com sorriso nos lábios.
Um belo dia Juquinha estava apertado, apertado demais. Pensou que se não fosse ao banheiro certamente molharia suas calças. Os padres não gostavam de que menino nenhum fosse ao banheiro perto do intervalo.
– Juquinha, fique onde está. Daqui há quinze minutos já será hora do intervalo.
– Quinze minutos? Eu não aguento esperar!
-Então, vá de uma vez, mas volte logo.
Juquinha foi ao banheiro, no caminho de volta começou a pensar na porta proibida e se deu conta de que nunca tinha visitado a porta proibida fora dos horários livres e uma tentação tomou-lhe completamente. E se a porta proibida estivesse aberta?
Juquinha tremia de excitação e nervoso. Algo na sua mente dizia que estava certo. Sim, só devem trancá-la, quando nós estamos soltos!
Juquinha andava rápido e nervoso em direção à porta proibida. Olhava nervoso para os lados para ver se não estava sendo seguindo e antes de dobrar a esquina para o corredor da grande porta, Juquinha suado e nervoso resolveu dar uma espiada e viu o padre mandão entrar na porta com um garoto que já devia ter seus treze anos. Juquinha, como um gato, escondeu-se onde estava e aguardou que os dois entrassem e fechassem a porta proibida. Eles não devem ter trancado a porta.
Juquinha tinha o pequeno coração acelerado de excitação. Finalmente ele veria o que tinha atrás da porta proibida. Ora, se o garoto mais velho podia entrar, ele também podia!
Juquinha aproximou-se com cuidado, lentamente, olhando assustado para os lados, temendo ser pego, girou silenciosamente a maçaneta e a porta proibida se abriu.
Juquinha teve o maior susto de sua vida. Ele gritou, mas gritou tanto e tanto e com tanto pavor, que em poucos segundos o corredor estava lotado de alunos e padres.
Ninguém precisou perguntar ao Juquinha o que ele tinha visto. Todo mundo entendeu.
Foi Juquinha que não entendia nada.
– Porque o padre mandão mandou o menino ficar pelado?
Silêncio absoluto. Ninguém sabia o que dizer.
Juquinha foi levado para a sala da diretoria. O padre diretor escutou tudo que os cinco padres professores disseram em voz baixa e depois pediu para que saíssem deixando o Juquinha com ele. O Diretor explicou ao Juquinha que o Padre só queria ver se o garoto tinha se machucado. Depois de muitas explicações, perguntas e respostas Juquinha não se convencia. O Padre diretor chamou os pais de Juquinha às pressas. Assim que chegaram se reuniram às portas fechadas e o padre diretor explicou para eles o que tinha acontecido, garantiu que o padre pego em flagrante seria afastado imediatamente e delatado às autoridades, disse que não era bom para o Juquinha saber a verdade, dada sua pouca idade, e implorou para que o ajudassem a convencer o Juquinha. Os pais concordaram e tentaram convencer o pequeno, mas depois de muito falatório tampouco conseguiram.
Juquinha estava resoluto: se era proibido e escondido, é por que era algo que bom demais. Olhou bem nos olhos dos pais e expôs com toda firmeza o raciocínio que desenvolvera com o tempo:
-Se fosse só proibido podia ser perigoso. Se fosse só escondido podia ser apenas um segredo. Só se proíbe e se esconde o que é bom.
A mãe olhou para suas unhas sem saber o que dizer. O pai colocou a mão na cabeça e percebeu que o filho tinha razão no seu argumento:
– Senhor Diretor, a porta era proibida a todos os alunos?
-Sim, era.
-Por quê?
-Por que havia objetos delicados e caros da nossa paróquia.
-Ninguém nunca conseguiu ver esses objetos?
-Os padres, é claro.
-Entendo, senhor diretor.
O pai olhou para seu filho, lhe dando um sorriso de confiança.
-Juquinha o que tem naquele quarto?
-Uma cama, uma mesa com bebidas e almofadas espalhadas pelo chão, papai.
-Entendo, meu filho.
O pai olhou para o Diretor com firmeza:
– Meu filho tem toda razão. Não tinha há lógica de ter tanto mistério em torno de algo proibido. Diretor, para se proibir, é necessário se entender o porquê. Meu filho sabe disso. O senhor não sabe? Eu não tenho mais dúvida alguma da participação e conivência de todos os padres desse internato. Meu único alívio é que eu tenho certeza que meu filho nunca entrou nessa porta proibida. Nem adianta me olhar aliviado. Vou denunciar vocês aos quatro ventos. Estejam preparados!
O pai puxou Juquinha pelo braço. A mãe assustada os seguiu sem olhar para trás. Juquinha continuava sem entender nada:
– O que houve, papai? O que houve?
O pai olhou para Juquinha e disse:
-Também se proibe e se esconde, meu filho, aquilo do que se tem muita vergonha de ser pego.
Juquinha olhou para o pai e sorriu. Ele tinha entendido a ideia. Ele mesmo já tinha escondido envergonhado o resultado de suas artes e proibido qualquer um de chegar perto. Lembrou-se de que quando quebrou o enfeite da mamãe, e o escondeu embaixo do tapete. Lembrou-se também quando se escondeu para comer os chocolates que sua mamãe tinha feito para dar de presente para sua amiga. Lembrou-se de quando atirou uma pedra na janela do vizinho e fugiu em disparada. Tudo proibido e escondido, pensou.
-O padre mandão estava fazendo alguma coisa errada- disse convicto para o pai.
-Isso mesmo, meu filho.
Juquinha nunca mais pisou naquele internato. Aliás, pelo que se soube o internato não sobreviveu ao escândalo e fechou as portas
Nem seu pai, ou sua mãe disseram uma única palavra a mais sobre o que tinha ocorrido. E nem precisava dizer, Juquinha sabia que o padre mandão tinha feito alguma coisa de errada com o garoto na cama.
E precisava saber mais?

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