Conto: Choro da alma

Ela andava cansada pela estreita ruela de terra. No rigor dos seus músculos fortes e masculinos, Lucinalva tentava mostrar força e ânimo, como para não se deixar abater pelo cansaço não só físico, principalmente emocional que a tomava por completo. No entanto, seu olhar vazio e esgotado provavam o contrário. Os anos de bóia-fria tinham a ensinado a lidar com o facão e ser, tal como ele, dura e afiada. Masculinizara-se por exigência da vida, carregava sempre o semblante duro e o olhar firme, o facão lhe dava confiança de que tinha força para agir como homem se fosse necessário. Não havia espaço para lágrimas, angústias ou inquietações. Era preciso ser firme, dura e valente. E, por tudo isso, que se obrigava, ainda que esgotada, a mostrar tanto o vigor, que já lhe faltava. Mas no meio do caminho tinha uma pedra angulosa e grande. Lucinalva não a viu e caiu com força na estreita ruela de terra, sangrando por fora e especialmente por dentro. Tal como uma criança assustada, Lucinalva chorou, chorou e chorou. Não foi um choro qualquer. Lucinalva secou em lágrimas frenéticas e velozes que molhavam o seco barro da ruela inutilmente. O tombo não rompeu apenas sua pele dura e ressecada, mas abriu a represa de sua alma. Foi a gota d’água que faltava para Lucinalva transbordar suas emoções que por anos a fio foram sufocadas pelo fio do facão. Todos seus sentimentos, suas angústias, suas dores, seu sofrimento de sol a sol ali expostos no sol impiedoso que rachava a terra e que secava cruelmente suas lágrimas. Tudo o que Lucinalva chorou o sol secou. Lucinalva chorou toda sua alma.

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