Conto: Fim da batalha

Alguma coisa agitava-se dentro dela terrivelmente. Mara já tinha participado de centenas de reuniões chatas e hipócritas como aquela, mas dessa vez algo crescia sem controle pulsando em seu peito, suas mãos suavam marcando o vidro da mesa de reunião e ela rodopiava em sua cadeira giratória sem saber o que fazer, perdida e angustiada.
Sua diretora a olhava de canto de olho seriamente, exigindo decoro e respeito. Mara suava ainda mais, baixava os olhos, parava por instantes, mas depois, tal como se estivesse possuída, tornava a mexer em sua cadeira desobedientemente. Então, num rompante de sanidade voltava a se lembrar do olhar fuzilante de sua Diretora e impunha-se, como uma lei suprema, o dever inabalável: suporte. Repetia-se em pensamento, na esperança de que aquelas palavras pudessem de alguma forma penetrar em seu cérebro: suporte, suporte, só mais um pouco. Suporte!!!
Contudo, era inútil. Era como se o corpo de Mara tivesse ganhado vida e inquieto insistia em mexer-se desordeiramente naquela cadeira giratória desobedecendo seu cérebro.
A Diretora interrompeu a reunião e disse em voz alta com os olhos frios e duros:
-Algum problema, Mara?
Pronto, ela estava exposta. Todos a olhavam curiosos, talvez desejando seu pior, talvez sua salvação ou apenas curiosos. Nada disso lhe importava. Mara estranhamente sorriu. Esse era o momento. Ela reconheceu.
A verdade que Mara buscava esconder de todos e de si mesma há meses é que ela não suportava seu trabalho. Enxergava na repetição dos afazeres diários, mecânicos e sem importância, o desperdício de todo seu potencial e principalmente de sua vida. A burocracia enfadonha do trabalho que exercia juntando e dividindo números, sem participar de qualquer forma para que esses números aumentassem ou diminuíssem, a irritava. Ela sabia que tinha se transformado em uma formiga, ordeira, trabalhadora, porém absolutamente mecânica e repetitiva, sem qualquer luz de vontade ou ânimo. Não havia mais espontaneidade, não havia mais criatividade, não havia mais prazer, não havia mais vontade, não havia mais espaço para vida.
Alguns meses atrás, Mara tinha reconhecido, depois de ter sido atropelada por um ciclista, felizmente sem nenhuma conseqüência física, a não ser alguns superficiais arranhões, que ela apenas respirava, mas já não vivia. Foi quando quase perdeu sua vida que se descobriu morta. Sua vontade, seus sonhos e seus projetos tinham sido jogados dentro de uma gaveta qualquer há muito tempo atrás, como se não tivessem qualquer valor. Mara passou a viver uma vida que nunca desejou, uma vida formatada por dogmas e valores de outros, uma vida seca e vazia que a matou completamente. Mara deixou de existir.
E como se o corpo pudesse transmitir mais sinceridade e espontaneidade que seu cérebro formatado, ele passou a desobedecê-la. Com os meses seu corpo passou a ficar mais e mais rebelde e em situações críticas como aquela era ainda pior: ficava descontrolado.
Mara viveu essa luta entre seu corpo e sua mente há mais muito tempo do que lhe era suportável. De um lado, sua mente lhe repetia sensata e insossamente que era loucura seguir seus instintos mais infantis e de outro seu corpo rebelava-se em público, a envergonhando. Agora olhando a Diretora com o dedo em riste intimando-a a comportar-se, Mara percebeu que finalmente havia chegado o momento de sua luta interna acabar. Não era mais possível viver assim.

Mara estranhamente sentiu-se novamente no controle de seu corpo. Percebeu que podia simplesmente ficar ou sair pela porta da cinzenta da sala de reunião. Nada precisaria ser dito era simples: ficar ou sair.
A luta interna tinha terminado. Reinava internamente sua harmonia.
Tomada por uma coragem daqueles que sabem, e sem pensar ainda que momentaneamente na insanidade aparente de seus atos, na segurança que deixava, nos frios e gelados olhares engravatados, ou em quaisquer outras coisas, Mara apenas decidiu pela vida. Foi assim que se levantou e saiu, sem nunca olhar para trás, com a pureza e a sinceridade de uma criança.

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