Perda de tempo

É desnecessário, inútil e sobretudo triste, mas as pessoas adoram falar uma das outras. Eu me pergunto o porquê disso? Por quê?
É alguém entrar em alguma sala para quem já está por ali a olhar de baixo para cima e de cima para baixo ao menos uma vez, e se algo lhe chamar a atenção por qualquer motivo mesquinho, medíocre ou simplesmente idiota, faz isso mais de uma vez. Se algo não estiver de acordo com os padrões sociais, morais ou até do gosto de quem olhou geralmente risadinhas e conversas paralelas se iniciam. Se alguma frase é dita de forma muito espontânea e que fira de alguma forma esses odiosos padrões sociais, morais e de gosto do ouvinte, que pode ser qualquer um que tenha pego a conversa no meio do caminho, então, mais uma vez, risadinhas, conversas paralelas e troca de olhares. Se acontece algo maior, se alguma atitude, chocar os padrões sociais, morais ou de mero gosto, ainda que hipócrita, daqueles que conhecem a pessoa, pouco importa se gostam ou não dela, se se importam ou não com ela, aqui só importa mesmo o prazer de fofocar, então, além das risadinhas e conversas paralelas, teremos discursos, conselhos e debates, sempre excluindo o alvo, que podem durar até uma semana, como o risco ainda do assunto ressuscitar toda vez que surgir alguém que não soube da “última”.
É fato que as pessoas falam, falam e falam, agora por que falam tanto e por que falam tanto dos outros? Qual é o prazer que as leva a falar de pessoas, às vezes até mesmo desconhecidas? Por que aquilo que é diferente incomoda tanto a massa bovina? Por que é preciso que se atenda a padrões morais, sociais ou até meramente estéticos dessa massa bovina? Por que querem que o mundo seja tão igual e cinza? Por que não podem aceitar o que é diferente, aquilo que é autêntico e, por isso, também verdadeiro? Eu não sei a resposta, mas acho que possa ser medo, ver alguém diferente e autêntico que esteja confortável e feliz com seus próprios padrões, convicções e moralidade assusta, afinal ele é um boi que preferiu não seguir o rebanho. Alguém assim que tem tanta segurança e autoestima a ponto de não se importar de não pertencer a um rebanho, sem dúvida, é um boi perigoso, com ideias próprias, talvez até um revolucionário.
Pessoas assim que ousam se vestir e pensar por si próprias devem ser repreendidas, insultadas, desprezadas, para que talvez com tão ferino veneno possam voltar à mesmice e à chatice. Talvez, além do medo, exista um pouco de inveja daquela pessoa ser assim do jeito que realmente é, sem se importar com os outros, talvez quem goste de falar e falar dos outros tenha passado a vida inteira querendo assumir sua verdadeira identidade, suas próprias opiniões e convicções, mas por fraqueza tenha seguido os padrões e dogmas mais comuns e também mais sem graça.
Como expectadora dessas fofocas, maldades, ou simplesmente desse hábito odioso de se falar do outro por nada, eu só posso lamentar o comportamento humano. Apesar de lamentável, triste e deplorável é o que realmente deveria ser esperado. Afinal, o que podemos esperar de pessoas que sacrificam sua própria vida, felicidade e sonhos pela ilusão da segurança que encontram em algum emprego, casamento ou qualquer outra coisa que odeiam? O que podemos esperar dessas pessoas que se anestesiam diariamente em frente à alguma distração artificial e ilusória na busca de aventuras e prazeres que não conhecem na vida real? O que podemos esperar dessas pessoas que preferem uma vida longa, tacanha, segura e sem graça do que uma vida repleta de satisfação, prazer, mas também de dores e riscos? O que podemos esperar dessas pessoas que só respiram e não vivem? O que esperar dessas pessoas que abriram mão de tudo que mais queriam em nome da segurança e de uma moralidade sem sentido ou lógica? Só se pode esperar mesmo que um de seus passatempos de perda de tempo seja falar daquilo que não deveria interessar a ponto de ser falado, já que vivem uma vida que não é vivida e anestesiam-se em prazeres que não são prazeres, jogando cada segundo sagrado de suas vidas na privada. Perdendo a chance de serem aquilo que nasceram para ser, desconhecendo a beleza da vida e, por tudo isso, pouco se importando em desperdiçar mais tempo ainda falando bobagens. Para quem jogou quase tudo fora parece não ser nada perder ainda mais.

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