Conto: Poço

Uma história para quem acredita e para quem não acredita em fadas…

Joana olhava para o poço indecisa. O que pedir?

Fechava os olhos e imaginava a figura daquela fada divina e encantada que lhe disse simplesmente com um lindo sorriso: “Peça o que quiser”. Na hora, Joana não pôde conter sua felicidade e chorou, um choro da alma, profundo, sincero e denso. Joana agradeceu efusivamente e guardou no coração com lealdade a dívida eterna que teria com aquele ser divino. Mas agora sentia no coração a angústia desesperada de não saber o que pedir. Havia tantas coisas, pensava em meio a lágrimas que pingavam trêmulas e pequenas no fundo do poço.

Apertou os olhos, triste, mais lágrimas escorreram e pingaram no poço. Joana, que minutos atrás viveu uma alegria profunda de quem enxerga a felicidade logo ali, agora agoniava com sua indecisão. O que pedir?

Pensava na vida que levava, na fome que agoniava os estômagos de seus irmãos menores, mas que já não a importunava ou a seus pais, nos olhos tristes e fundos de seu pai, velho e cansado, que carregava uma culpa imensa e corrosiva por tudo que assolava sua família, na raiva contida de sua mãe, que exigia dos céus e principalmente do seu inconsolável pai uma vida melhor, na decadência dos sofás rasgados, das louças e móveis quebrados, e da tinta gasta e suja, e um sentimento de impotência que a todos devorava por dentro. Só restavam as sombras das pessoas que um dia já foram.

Joana queria ajudar seu pai, seu eterno herói. Ele já tinha sido forte e cheio de si um dia, mas agora definhava, recusando-se a comer o pouco que havia de comida, para que seus filhos pequenos tivessem alguma chance de se tornarem fortes. E mesmo manco e fraco insistia em trabalhar. Acreditava que um dia poderia ser recompensado por sua insistência, mas a terra era seca e nada crescia. Joana assistia a seu pai perder a saúde e a travar dia após dia uma batalha sem fim.

Joana também queria dar comida e sobretudo esperança aos seus pequenos irmãos que já não sorriam, muito prematuramente deixaram de ser as crianças que eram. Nos seus olhares carregavam a secura e a amargura de uma vida há muito tempo sem sol.

Sua mãe também Joana precisava ajudar. Ela não estava nada bem, nem um pouco, tinha se deixado consumir pela escassez e pela dureza que a cercavam. Nas lutas infinitas que sua família já há tantos anos enfrentava, Joana percebeu que sua mãe não tinha a valentia que ostentava, era fraca e cruel na desgraça, e assim culpava a todos, menos a si mesma, pela mesa vazia. Talvez por vingança ou puro egoísmo, toda vez que um pouco mais de alimento chegava àquela casa, sua mãe os devorava com a vivacidade dos impiedosos. E ver aquilo, dilacerava o já fraco e doente coração do seu pai que passava fome por seus inocentes filhos.

A miséria arrasara o lar da família Braga por completo e parecia que tudo se resumia a uma questão de tempo para a agonizante tortura, enfim, acabar. Na tristeza daquelas sombras não parecia que nada poderia mudar. Ainda que fosse assim, Joana, na rebeldia dos seus quinze anos, se recusara a se entregar à fome, à miséria, à desesperança, à raiva ou à apatia. Foi assim, resolvida e esperançosa, que caminhou até o poço e fez seu pedido à fada, que desde muito menina Joana acreditava que morava lá. E, então, a bela fada apareceu sorrindo e lhe concedeu um único pedido, Joana agradeceu pela graça, tudo seria facilmente resolvido pensou na hora, mas agora refletindo percebia que era muito difícil saber o que deveria pedir. Havia uma só chance de acertar. Era tudo ou nada.

Joana pensou em pedir dinheiro, muito dinheiro, um dinheiro que nunca acabasse, mas, então, o sentimento de impotência de seu pai permaneceria, a avareza de sua mãe abrandaria, mas não deixaria de existir, e continuaria a se colocar sempre na frente daqueles que não podiam se defender, talvez ela até enlouquecesse e só se importasse em gastar e gastar, sem nunca se preocupar em fazer qualquer bem com o dinheiro. Talvez não fosse só ela que agiria assim, pode ser que toda família, traumatizada da miséria, só se preocupasse em gastar aquele dinheiro infinito, gastar por gastar, comprar por comprar, ter por ter. Tudo é possível quando o dinheiro não tem qualquer valor do merecimento pela luta e pelo trabalho, pensou Joana. É claro que com esse dinheiro seus pequenos irmãos nunca mais teriam fome e poderiam ter tudo aquilo que quisessem sem esforço, mas nada aprenderiam com isso, é provável que isso lhes seja até mesmo prejudicial, poderiam se tornar arrogantes e vazios. A verdade é que aquilo que vem facilmente, também facilmente pode ir embora, não se pode contar com um dinheiro infinito. E como nós viveríamos depois que a ilusória fartura fosse embora? Com que olhar poderíamos desafiar a miséria, nós que ganhamos tudo sem lutar? Teríamos alguma chance?, se perguntava Joana.

Joana quis que as terras de seu pai se tornassem férteis e começassem a dar frutos, então, seu pai se sentiria recompensado por seu árduo trabalho e clamores ao seu bom Deus. Joana era muito jovem, mas sabia das coisas. Ela se lembrou que aquelas terras já foram férteis e mesmo férteis seu pai perdeu dinheiro. Grandes fazendeiros ocupavam a região e seu pai foi aniquilado pela competição. Tivera a chance de trabalhar para os fazendeiros e de vender suas terras, mas sua teimosia o impediram de ver o mundo novo, que agora atropelava sem pedir licença. Joana sabia que essa também não era a solução. Pensou levianamente em aniquilar os fazendeiros produtivos e empreendedores para que seu pai fosse a única solução da região, mas se perguntou se haveria justiça em desejar a queda daqueles que lutam e são bons. Seria justo que a felicidade de sua família fosse construída em cima da desgraça de outros que sofreriam como eles? Por que eles eram os escolhidos? Nada justificava. Joana também não queria isso.

Chegou a pensar em uma solução só para si. Poder se ver livre de todos eles e ser feliz em outro lugar sozinha e bem sucedida. Mas conseguiria virar as costas e nunca olhar para trás? Joana os amava com toda a força do seu ser, sua felicidade era composta pela felicidade deles. Essa também não era a solução que buscava.

Joana pensava, pensava e pensava e não sabia o que devia pedir. No meio dos soluços começou a pensar que a resposta seria seu pai ser um pouco menos teimoso e muito mais empreendedor, abrir-se para o novo mundo, que estava ali bem a sua frente, sua mãe também deveria deixar de achar que todos deveriam lhe servir e passar a contribuir para o mundo, teria também que aprender a importância de sua família para que os amasse com a bondade e a doçura, que um dia já tinham ocupado seu coração, seus irmãos teriam que compreender, ainda que muito jovens, que tudo é conquistado pela luta, pela vontade de vencer e que nada é de graça ou por acaso. Talvez se pedisse tudo isso e dinheiro, dinheiro infinito, pudesse dar certo, pensou Joana. Mas sabia que havia um só pedido a ser feito e ali haviam muitos.

Joana chorava inconsolável sem saber a resposta e tremia diante do fato de que, afinal, nada mudaria se cada um que estivesse ali, não mudasse, inclusive ela. Foi em um instante olhando as águas do poço que Joana percebeu, enfim, o que estava acontecendo. Uma luz de sabedoria a iluminou naquele momento e Joana entendeu que aquela desgraça que todos enfrentavam era uma oportunidade para que mudassem, era o agente transformador necessário para que a família pudesse ser verdadeiramente feliz no futuro, todo aquele sofrimento, no final, por mais estranho que pudesse parecer, era uma benção. Joana enxugou as lágrimas e riu da ironia de tudo. Era isso, pensou. Joana carregava a certeza daqueles que sabem o caminho.

Joana agora estava feliz e animada. Iria guardar seu pedido para o futuro. Depois que todos aprendessem suas lições ela faria seu pedido e ele certamente daria certo.

Joana desceu do poço e correu em direção à sua casa. Sentiu aquela conhecida falta de energia, o velho desânimo contagioso que buscava sufocá-la, mas não se deixou nem por um instante abater. Abriu um sorriso e beijou a todos, porque tinha entendido que os amava profundamente.

No dia seguinte se juntou ao seu pai, que teve as energias renovadas por sua companhia, já não carregava o fardo sozinho, o mundo já não pesava inteiro sobre seus ombros. Com o tempo a energia dos dois contagiou a casa e até os pequenos quiseram ajudar de alguma forma, instintivamente eles souberam, pela sabedoria que as crianças desde cedo carregam, que construir alguma coisa do nada podia ser rico e transformador. Sorrisos espontâneos e gargalhadas musicais começaram a invadir a casa. A mãe, que ainda teimava em preservar sua amargura, foi aos poucos cedendo, amaciando e, tendo a oportunidade de ver florescer toda sua família, se lembrou de como e por que os amava. Percebeu a maldade que vinha ocupando seu coração, e como já não a queria por perto de jeito nenhum. E, em uma noite, agarrou-se ao seu marido em prantos e simplesmente se desculpou. Seu marido, que a conhecia bem e ainda a amava, sorriu e a perdoou. Não demorou muito para ela se tornar a pessoa que era e sua doçura e bondade completaram o pouco que ainda faltava para serem felizes.

A prosperidade veio àquela família e o dinheiro voltou a jorrar. Joana se lembrou da fada e do pedido concedido, mas percebeu que ele já não era necessário, talvez nunca fora necessário. Percebeu que toda sua família esteve perdida por um tempo sem saber que caminho seguir. Agora Joana via claramente que tudo sempre estivera ali à disposição, tudo o que fora necessário era a vontade de realmente mudarem. Não qualquer vontade, mas aquela que compreende a importância da luta, de fazer acontecer, uma vontade mágica. Sim, o que Joana quis ela teve, tal como prometeu a fada. Joana entendeu que tudo era uma questão de querer de verdade e acreditar, para saber lutar e perseverar até o fim.

Joana voltou aquele poço e chamou pela fada, contou tudo emocionada e, por fim, disse que abriria mão de seu pedido. A fada sorriu e, antes de ir, falou à Joana:

⎯Você sabe agora que pode ter todos os pedidos que quiser de verdade.

Joana sorriu. Aquilo era verdade. Dizem que magia é transformar o mundo conforme sua vontade. Joana sentiu que ela também era uma fada.

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