Conto: Tudo por Antoine

Eu estava distraída. Esqueci completamente que o cigarro queimava entre meus dedos, foi a brasa incandescente que me trouxe de volta. A lembrança do horror que eu vivi ainda me assombrava após tantos anos. A saudade de Josephine e Pierre ardia em meu peito. Lembrava de Antoine enquanto olhava para o céu iluminado com suas belas e cintilantes estrelas.

Muitos anos tinham se passado, mas eu me lembro tão bem, como se fosse ontem.

Na época, eu tinha dez anos de idade. Na nossa fazenda havia muitos escravos, mas conviviam conosco na casa, Josephine e Pierre. Eram eles que faziam tudo dentro de casa desde sempre. Meu pai cuidava de seus negócios e minha mãe ficava na sala de estar, distraindo-se com música e muita bebida. Deve ser por isso que sempre amei muito mais Josephine à minha própria mãe. O jeito que ela cozinhava para mim, preparava meu banho, me acarinhava em seu colo e me ninava para dormir faziam parte das minhas melhores memórias. Eu amava Josephine com todo o amor que uma criança pode sentir em seu dourado coração. Meu pequeno irmão, François não sentia de forma diferente. Para nós, Josephine era nossa mãe.

Josephine e Pierre tinham um filho, Antoine. Meu pai e minha mãe, mas, principalmente, meu pai não queria que nenhum filho de escravos fosse criado conosco e Antoine não era nenhuma exceção. Por isso enquanto Josephine cuidava de nós com todo seu zelo maternal, outra escrava qualquer olhava por seu único filho, e, como o trabalho na fazenda era ritmado por chicote e sangue, hoje eu sei que Antoine teve que se criar sozinho.

Um dia meu pai saiu para cuidar de seus negócios, sabíamos que teria que ir longe, pois preparou uma mala e despediu-se de minha mãe, coisa que geralmente ele não fazia. Minha mãe, como de costume, perdeu-se com a bebida na sala de estar. Foi por isso que nesse dia Antoine pode brincar comigo, François e Josephine. Nós nos divertimos como nunca. Acho que era porque Josephine estava mais feliz por ter seu filho consigo.

Meu pai, não sei o porquê, voltou naquele mesmo dia e nos encontrou em plena diversão, rindo e sujos no jardim da frente. Lembro-me que o rosto de meu pai ficou vermelho, o ódio faiscava de seus olhos negros e brutais. Ordenou a Josephine que aguardasse ali, enquanto nos puxou pela roupa para dentro de casa. Chutou a porta da sala de estar e agarrou nossa mãe pelo cabelo. Entre gritos fomos parar no chuveiro. Aquela foi a primeira vez que nossa mãe nos deu banho. Ela chorava muito e, embora nós não fossemos afeiçoados a ela, aquilo de alguma forma nos fez chorar ainda mais. Depois do banho, ainda em prantos, nossa mãe nos levou até nosso quarto e passou a chave na porta. Ficamos ali, assustados, com fome, largados para dormir, e principalmente temorosos do que papai faria com Josephine e Antoine.

François dormiu pesado. Era muito pequeno para resistir ao sono, mas eu resolvi zelar por Josephine da minha janela. O capataz chegou e arrancou a roupa de Josephine e Antoine. Fechei os olhos, eu queria chorar e gritar, mas meu pequeno irmão dormia e eu não queria que ele visse o que foi o maior horror de toda minha vida. Depois, entre gritos e lutas de puro desespero, o capataz insensível amarrou Josephine na grande árvore, sem titubear fez o mesmo com o pequeno Antoine. O pobre pequeno gritava tanto que do alto da minha janela podia sentir a vibração alucinante da sua dor, Josephine também chorava e gritava, mas sua dor não tinha a força da dor do pequeno, fruto do genuíno espanto do que seria feito com ele.

Os urros de Antoine me arrepiam até hoje.

Eu pensei em não assistir mais nada. Eu sabia que o que estava para ver seria aterrorizante, mesmo assim, segurei-me firme à janela. Após algumas horas, talvez foram apenas minutos, certamente os mais longos de toda minha vida, meu pai apareceu e com o chicote dilacerou com duros golpes Josephine e Antoine. No final da cena mais assustadora que já presenciei, vi uma enorme poça de sangue vermelho penetrando lentamente na terra solada e Josephine e o pequeno Antoine desmaiados, com suas cabeças pendendo para frente sem força. É claro que não dormi nessa noite, como não durmo em muitas noites até hoje. Essa visão horrenda ainda enche meus olhos de puro terror.

No dia seguinte, bem cedinho escutei o grito mais dolorido de toda minha vida. Corri para janela e vi Josephine caída no chão, debruçada sobre o pequeno Antoine ainda desfalecido. Ela o sacudia e o sacudia, desesperadamente, mas o pequeno estava mole. Estava morto. Senti meu coração partir junto com o de Josephine. Eu era pequena, mas compreendia em meu âmago sua dor.

Foi na noite desse mesmo dia que meu pai morreu. No dia seguinte o enterramos, mas seu corpo logo desapareceu. O povo diz que ele ainda vaga pela fazenda com seu chicote, procurando alguém para devorar. Pode ser verdade, quem poderá saber. Eu mesmo o vi ressuscitar dos mortos, mas o que eu nunca contei a ninguém até hoje é que fui eu quem assassinei meu próprio pai e depois participei do ritual macabro que o transformou em um zumbi.

Josephine e Pierre eram sacerdotes da religião vodu, ela uma mambo e ele um houngan.

Josephine e Pierre me chamaram e me contaram o que pretendiam fazer com meu pai. De alguma forma, eles sabiam que podiam contar comigo e estavam certos. Eles me deram um pó mágico e ensinaram como eu deveria aplicá-lo para ferir mortalmente meu pai. Não tive qualquer dúvida, apliquei o pó nas mãos do meu próprio pai, ensanguentadas e destruídas pelo chicote, rapidamente o veneno foi para a corrente sanguínea e, em poucos instantes, ele estava morto. Eu o vi morrendo e o encarei todo tempo sem misericórdia. E eu era apenas uma criança, mas de alguma forma o horror, que presenciei e do qual ele era o único responsável, fez com que a criança que existia em mim morresse. Foi por isso que não derramei nenhuma lágrima por meu pai naquele dia e em nenhum outro. Minha mãe o enterrou no dia seguinte. Josephine e Pierre à noite pegaram seu corpo. Eu já estava na local do ritual, esperando eles chegarem junto com os outros escravos da fazenda. Eu fiquei sentada em um canto, observando tudo. Não dancei, não incorporei, não fiz nada, mas vi, sim, eu vi, entre cobras, velas, símbolos, sangue, caveiras, danças frenéticas e violentas, música e magia, meu próprio pai ressuscitar.

Ele ressuscitou sem alma, lobotomizado. Ele não me reconheceu, sua filha, sua assassina. Passou a ser escravo de Josephine e Pierre. Minha mãe o encontrava algumas vezes pela casa, pela fazenda, pelas terras vagando, e acreditava que ele era um zumbi faminto que queria devorá-la, acho que foi por isso que mais tarde ela se matou. Eu também não chorei por sua morte. Acho que mais sentiu sua falta foram as bebidas que ela acarinhava por todo dia.

Hoje, eu sou uma mambo poderosa. Sou respeitada e temida em todo Haiti. Tenho um zumbi que me serve. É o antigo capataz da nossa fazenda. Depois que meu pai morreu e transformou-se em zumbi, de medo, ele fugiu e nunca mais voltou. Faz poucos anos, descobri seu paradeiro. Era o que faltava para nossa vingança. Eu o matei e o transformei em um zumbi, meu escravo.

É uma pena que Josephine e Pierre não viveram para ver isso. Eles tiveram uma vida longa. Criaram eu e o pequeno François com muito amor, mas nós dois sabíamos que o amor por Antoine nunca pode ser inteiramente substituído. A ferida estaria sempre aberta e doía demais. Queria poder contar a eles que em breve o pequeno François se tornará um houngan. Pierre e Josephine teriam orgulho de nós dois.

Ao longo de todos anos sempre lembrávamos de Antoine. Pedíamos sempre por ele. Mas, por mais que todos amássemos Antoine, nunca cogitamos trazer Antoine de volta. Nunca. Zumbi é um fardo para ser carregado só por quem merece. Antoine sempre foi puro e morreu assim. O ti bon ange descansa em paz, pois o gros bon ange voltou ao cosmos. Eu posso ver sua alma brilhando aqui da minha janela.

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