O céu sempre pode ser azul (uma história para todas as crianças, até as mais velhinhas…)

  1. Para você saber o porquê

Eu estou aqui para contar minha história. A história de como eu me transformei em outra pessoa, completamente diferente de quem eu era. Sim, isso é possível. E depois como consegui juntar todas as partes perdidas de mim e ser novamente quem eu sempre fui. Talvez haja momentos que você chore comigo, segure a minha mão e me dê um abraço. Isso faz parte. Sei que se isso acontecer é por que estou falando ao seu coração, de alguma forma que sua mente não compreende, mas sua alma sim. É com ela que eu quero conversar.

A minha história é a mesma história de muitos e ao mesmo tempo é só minha, pois fui eu quem a senti com todas minhas emoções. É uma história tão simples quanto verdadeira. E eu só conto minha história a você, pois sei que pode de algum jeito te ajudar como me ajudou. Quero curar as feridas que existem em seu coração e deixá-lo, mais uma vez, disposto a viver e a se arriscar, pois é disso que é feita a vida.

Eu nasci mágica e linda como todas as crianças. Tinha um sorriso puro no rosto e um olhar brilhante de alegria. Acreditava em fadas, anjos e também em monstros. E brincava o dia todo naquilo que achasse mais interessante e divertido, como se não houvesse amanhã. Como todas as crianças nunca queria dormir. Não há pressa para descansar quando vivemos em um mundo de pura magia.

Como muitos fui deixando essa magia dentro de mim morrer. Chegou o dia em que ela já tinha morrido há tanto tempo que cheguei a duvidar que realmente tivesse existido. Transformei-me em quem o mundo dizia que eu devia ser e perdi o contato comigo mesma. Segui vivendo de acordo com as regras do mundo e dos homens. E como eram chatas e previsíveis essas regras…

Quando era criança sonhava com o dia em que seria adulta, seria livre e faria, enfim, tudo que desejasse, como pilotar aviões, escalar montanhas, nadar nos mares desse mundo e correr pelo sol desse mundo afora. Também sonhava com mundos encantados, lugares mágicos habitados por seres estranhos que teriam para mim todo dia uma nova aventura para viver. E passaria minha vida colecionando aventuras malucas, histórias encantadoras e mágicas exatamente como aquelas que lia nos livros. E, quando finalmente virei adulta, e tive toda liberdade do mundo, inclusive para criar mundos, foi curioso como esses sonhos mágicos se transformaram em uma mera fantasia infantil. Não pilotaria aviões, pois eram complicados e perigosos demais, assim como escalar montanhas, nadar e correr pelo mundo. Não sei exatamente o momento em que troquei o prazer de viver pela segurança de um dia após o outro, todos exatamente iguais, e, por isso, chatos. Eu vou contar tudo que foi acontecendo comigo e talvez você saiba me dizer por que isso aconteceu comigo. Eu só sei que em uma hora eu percebi que eu tinha me tornado exatamente como a imensa maioria dos adultos: chata demais.

Com o tempo, com era de se esperar, escolhi um trabalho seguro e nada arriscado que me garantiria aquilo que todos parecem procurar que é proporcionar dinheiro para ter conforto e mais segurança. Era o “sonho” padrão que de alguma forma estranha é inserido na mente de quase todas as pessoas, sim, na mente, jamais nos seus corações e é justamente por isso que não é um sonho verdadeiro. Nessa época eu estava perdida e eu não sabia o que queria. Eu achava que queria o que todos julgam adequado e correto. Se era aquilo que o mundo me dizia que eu devia querer aquilo, então, aquilo tinha que ser verdadeiro. Eu não podia imaginar que, ouvindo a voz do mundo, eu estava caindo na pior e mais cruel das armadilhas. Não sabia que assim estaria sufocando minha alma e com isso provocando o que no futuro seria o meu maior sofrimento. Não sabia. Juro que não tinha ideia. Bem, talvez tivesse, pois meu coração apertava forte de tempos e tempos, me fazendo sofrer e chorar. Hoje eu sei que ele me dizia que tinha algo errado com a minha vida. Mas o que fazer? Eu tinha aprendido a dar ouvidos ao mundo e ao que os outros diziam, julgava-os mais velhos e entendidos que eu, e por isso obedecia cegamente todas aquelas loucas regras que regiam os homens, que, hoje eu vejo, buscavam, de um jeito ou de outro, sempre silenciar seus corações. Ah, se os homens soubessem que são os corações que guardam a sabedoria e a resposta para todas nossas perguntas, o tratariam muito melhor…

Voltemos ao que “eu” queria da minha vida. Bom, eu achava que era uma garantia de um certo conforto, enfim, uma casa própria, dinheiro para pagar as contas e uma família. Por tudo isso, prestar algum concurso público parecia perfeito. Eu sabia que enfrentaria concorrência, e, por isso, estudei com afinco. Não foi fácil passar no concurso público, afinal todos queriam essa mesma segurança, mas, após dois anos, eu passei e conquistei o que achava que era o meu sonho, e hoje eu sei que era, na verdade, a minha prisão.

Foi assim que minha vida começou toda torta e toda errada. É claro que se você pensa como o mundo não achará isso. Mas se você vive sua vida a partir da sua alma e do seu coração, como as crianças, saberá que eu vendi minha liberdade, meus sonhos, a possibilidade de viver de acordo com quem eu era por alguns trocados por mês. E é nesse momento aqui que percebemos a sabedoria que habita em todas crianças… Qualquer criança em sã consciência que se peça passe o dia todo fazendo uma tarefa irremediavelmente chata demais em troca de um teto, comida e algumas distrações idiotas, jamais concordará, esperneará e lutará até o fim por sua liberdade. Se lhes disser que é até o resto da vida, então, é certo que a criança fugirá de casa, pois ela sabe no seu coração que quer viver de verdade. Mas nós, adultos, somos sabidos demais, e nos voluntariamos para essa troca, achando que estamos tirando a sorte grande. Sufocamos nossa sabedoria, a voz do nosso coração, deixamos de valorizar o que realmente importa ou agimos como tal e começamos a aceitar dar tudo aquilo que tem mais valor para obter uma segurança que, de verdade, nem existe e o pior de tudo: sufoca.

Se fôssemos morrer no dia seguinte, conseguiríamos ver com clareza que usar nosso tempo precioso para carimbar papéis o dia todo não é relevante, mas, como achamos que não vamos morrer, seguimos carimbando papéis dia após dia e vendendo o cárcere da nossa alma por um conforto que se olharmos bem não conforta, só anestesia a dor e a deixa dormente, mas não engana nosso coração, que fica largado em um canto qualquer chorando.

Eu segui na minha respeitada profissão concursada carimbando papéis em troca de segurança e conforto. Contudo, para minha surpresa e alegria, minha alma não era dessas almas fáceis de ser encarcerada. Ela começou com toda sua genialidade a pregar peças em mim. Na época tive ódio e raiva de todas essas travessuras, depois me apaixonei por elas, pois elas me fizeram despertar. E é essa história que eu vou contar a vocês.

  1. Mamãe, quero pilotar aviões

Desde que eu me lembre por gente, era fascinada por aviões. Lindos, enormes, brilhantes, correndo por esse imenso céu azul. Gostava deles de todos tamanhos, idades e cores. Me orgulhava de apenas com dez anos reconhecê-los de longe. Meu interesse era tanto que aprofundei meu conhecimento e comecei a saber o nome de aviões antigos, históricos e diferenciados e sempre que podia me exibia em público, geralmente, ao invés de causar impressão, causava mesmo era espanto. Foi bem nessa época que minha mãe resolveu nas palavras dela me alertar sobre a vida com todo tato que ela não possuía.

—Minha filha, aviões são para meninos e você é uma menina. Por que você não gosta de brincar de bonecas como as outras meninas da sua idade? A Joana faz coleção de bonecas, é tão linda, você já viu?

Se os pais soubessem a influência que têm sobre seus filhos talvez pensassem mais antes de fazer um comentário como esse, mas não podemos culpá-los, pois eles devem ter tido seus sonhos esmagados e a vontade da maioria também deve ter-lhes sido imposta goela abaixo. Ainda assim, vale pensar que o mundo seria um tanto melhor se todos os homens deixassem todos os outros simplesmente “serem”…

Os comentários de mamãe eram frequentes e toda vez que ela me via falando de aviões, vendo livros de aviões, colecionando figurinhas de aviões era notável que ela ficava ainda mais preocupada e aquele reles comentário virava um discurso inflamado de quem defende uma causa. Até hoje não sei se mamãe estava preocupada com o que os outros iriam dizer, se simplesmente passava um conhecimento que era geral da sociedade ou se tinha medo que eu teria meu sonho frustrado. Sim, minha obsessão era tamanha que eu passei a dizer a todo mundo que via na frente que quando eu crescer eu queria ser pilota de avião. É claro que deixei os cabelos da minha mãe mais brancos com essa novidade que eu achava que no fundo ela já desconfiava. Ela tomou meu sonho como um disparate infantil, tratou-o com rigor militar e fez que fez até provar para mim que o que eu queria não só era impossível, como despropositado e até ridículo. Frases de efeito eram soltadas a todos instante para me atingirem e o mais triste é que me atingiam. Depois de um tempo me derrotaram. Foi nesse momento que eu deixei de ser eu mesma para ser quem pensaram que eu tinha que ser. Sabe de uma coisa? Até hoje, se eu fechar os olhos, ainda consigo ouvir as duras frases e vejo como elas me marcaram de um jeito ruim, mas você deve ficar feliz em saber que elas já não me impressionam mais…

Você quer ser pilota? Me diz: como vai ter filhos se viajar o tempo todo?

Quem vai querer namorar uma pilota de aviões?

Com que dinheiro você vai fazer um curso para ser pilota?

Que ideia mais idiota ser pilota de aviões, só homens podem ser pilotos!

Onde já se viu uma mulher pilotar aviões? Você vai acabar uma velha solteirona se conseguir dinheiro para fazer o curso para pilotar aviões. E não vai vir morar comigo não…

Você sabe que os pilotos de aviões não dormem à noite direito? É isso que quer? E comida de avião, então, você já comeu? É horrível!

Mas eu não posso culpar só mamãe por eu ter desistido de ter sido pilota. O mundo todo dizia que era estranho e as pessoas tendem a não tolerar quem é diferente. Tradicionalmente era mesmo uma profissão masculina. Isso era verdade. Mas e daí? Hoje vejo como tudo isso era bobagem. E quer saber? Eu também não posso culpar o mundo. Eu sempre fui livre para pensar. Mas também não posso me culpar. Eu era muito nova para saber qualquer coisa. Acho que não posso culpar ninguém. E para que queremos sempre um culpado? Culpados existem para virarem desculpas esfarrapadas de algo que deveria ter sido e não foi. O fato é que passei a dar mais valor a voz dos outros do que à minha própria voz interior. Com o tempo descobri que é só nela que temos que confiar. É ela quem tem todas as respostas. Mas naquela época eu era ainda tão nova e não desconfiava que o mundo todo estava errado e eu estava certa… Não desconfiava disso. Não ousei ter essa coragem ou essa petulância. Na verdade, hoje eu sei, não é que o mundo estivesse errado e eu estivesse certa. Não é isso. No final das contas o que você acredita é o que acontece e você acaba se tornando exatamente quem acredita que é. Por isso, no momento que comecei a acreditar no mundo e não em mim realmente se tornou impossível para mim virar pilota de avião e eu passei a ser qualquer coisa que não eu mesma.

Eu não sabia que eu me tornaria exatamente quem eu acreditava que era. Eu não sabia da importância que tinha as coisas que eu acreditava para mim. Achava que o mundo era um jogo de acaso e que éramos lançados aleatoriamente nessa miscelânea desordenada e descoordenada e que tudo podia acontecer ou nada podia acontecer, dependeria um pouco de você, mas muito mais do destino e de sua sorte. Foi só depois de um tempo que eu descobri que eu era a maior responsável pela minha vida, o destino e a sorte podiam até me atrapalhar ou me ajudar um pouco, mas no fundo eu dirigia o meu barco, a decisão do caminho a trilhar era só minha. As tempestades, assim como as bonanças existiam em todo mar sempre. E foi só depois de mais um tempo ainda que eu descobri que não há nada como sorte e destino do jeito que essas palavras são usadas. Sorte é estar preparado para as oportunidades que estão sempre por aí. E destino, como eu disse, cada um escolhe o seu.

  1. Perdida no mar

Eu fiquei muito tempo perdida no mar jogada ao sabor das correntes, das ondas, dos ventos, das marés e de qualquer coisa apta a me influenciar de alguma forma. Eu não sabia para onde ir. Eu não sabia o que fazer. Se a vida era um mar, imperioso e cheio de vontades, quem era eu para querer alguma coisa? Tudo o que eu queria era deixar meu barquinho firme para suportar as tempestades que viessem pela frente. E assim dia após dia eu navegava sem rumo, sobrevivendo.

Naquela época eu não imaginava que era poderosa. Não imaginava que meu barco era forte e equipado o suficiente para decidir o rumo, e chegar aonde quisesse, apesar das tempestades, das correntes ou do que quer que seja. Eu não sabia que todos nós temos o barco certo para o trajeto dos sonhos. Eu não sabia que minha única missão era contentar meu coração e realizar meus sonhos. Eu não sabia que faria isso, mantendo sempre aceso meu prazer em viver, exatamente como fazem as crianças. Nunca imaginei que não existem horas vagas. Vale aqui e agora. Todo minuto é um presente.

Meu barco ficou muito tempo perdido. Minha vida não podia estar mais distante do que um dia eu sonhei. Eu que tinha sonhado em desbravar céus e mais céus, vivia agora da casa para o trabalho, do trabalho para casa, no meio tempo carimbando papéis infinitos que brotavam da minha mesa. Não preciso dizer como o sorriso que eu sempre carreguei nos lábios desapareceu. Tornei-me séria e carrancuda. De tempos em tempos, ainda me lembrava com saudades da garotinha que um dia eu tinha sido. Ela era muito feliz.

O tempo foi passando e a garotinha ficava cada vez mais longe de mim. Pudera! Eu estava me transformando em alguém que a minha menininha jamais gostaria de ter por perto. Não foram só os sorrisos soltos e frequentes que eu perdi. Foi muito mais. Meus olhos não brilhavam mais, de algum jeito louco tornaram-se opacos e cinzentos. Eu deixei de ver a beleza na vida. Você pode não acreditar, mas, mesmo na primavera, quando as ruas estavam repletas de árvores floridas, verdadeiras canções da natureza, eu não enxergava. O Universo me dava presentes e eu não via. É…eu vivia no piloto automático e é triste demais viver assim. E é curioso que eu não percebia isso, eu achava que era o mundo que se tornava cinza, mas era eu quem não via mais suas cores.

Apesar do mau humor, da carranca, do olhar cinza e opaco, dentro de mim habitava uma alma rebelde e alegre. Ela nunca me abandonou e em alguns momentos descontraídos eu perdia o controle e minha verdadeira essência vinha à tona e iluminava o ambiente. Eu dançava, cantava e brincava com uma alegria pura, parecia, então, que eu era criança mais uma vez. E como é bom ser criança. Eu podia ser quem eu era.

Essa minha alma era divina, assim como a sua. Sim, ela é! É esse nosso lado irracional que vem de algum lugar mágico, que tem todas as respostas e que sabe sempre o que fazer. Podemos buscar calar nossa alma, jogá-la no calabouço, deixa-la sempre lá, suja e esquecida, e com que frequência fazemos isso, mas ela é boa e não nos abandona só por que achamos que ela não existe ou por que ignoramos tudo que ela diz. Ela fica conosco até o fim carregando uma tristeza inconsolável justamente porque ela que nasceu para brilhar nunca mais pode ver o sol, a lua ou as estrelas.

E com o tempo, se a sua alma for rebelde com a minha, começará a pregar algumas peças para chamar sua atenção. Foi assim que eu percebi que ela existia de verdade.

A minha alma começou a atacar o meu próprio corpo. Não que ela quisesse destruir sua própria casa. Não é isso. Mas, se esse fosse o único caminho para a liberdade, valia o risco. E foi assim que tudo começou.

  1. Há males que vem para o bem

Eu tinha 30 anos, não tinha casado, e, para ser sincera, eu duvidava que encontraria alguém que conseguiria se apaixonar por minha carranca. Tudo caminhava para eu me tornar uma solteirona. Eu morava sozinha em um apartamento, cujos melhores adjetivos para o qualificarem era pequeno e prático. A vantagem é que era perto da repartição, a desvantagem é que ele era bem diferente dos castelos que imaginei que moraria.

Foi numa segunda-feira que aconteceu. Eu simplesmente não conseguia mover minhas pernas. Chamei minha mãe, nesse tempo uma respeitada viúva, que veio ao meu socorro e tratou de me levar a um hospital. Fiz uma batelada de exames médicos e nada. Ninguém conseguia dizer por que eu não andava mais…

Fiquei acamada, e, apesar da falta de diagnóstico concreto, consegui licença médica. Minha vida ficou, então, ainda mais chata que era. Se carimbar papéis já era chato, olhar para o teto o dia inteiro, ver televisão ou ouvir as histórias da minha mãe sobre a vida das pessoas que um dia eu conheci era mais chato ainda.

E foi então que minha alma pregou a segunda peça em mim. Meu braços e tronco também paralisaram. Eu fiquei completamente imóvel, só mexia o pescoço e a cabeça, mamãe que, nas palavras dela, estava cansada de gente doente, convocou o home care, e, se já era chata a vida que eu tinha antes, tornou-se ainda pior, eu dependia dos enfermeiros para tudo. Fiquei com tanta raiva do mundo que parei de ver televisão, ler ou fazer qualquer coisa, passava o dia inteiro olhando para o teto e dormindo. De vez em quando, conversava com os enfermeiros conversas sobre doenças e desgraças. Mamãe, de tempos em tempos, me visitava. Era sua obrigação como mãe, ela dizia para mim.

Depois do período de raiva, veio o marasmo, a profunda apatia. Eu gostava de dizer que nada me afetava mais, que eu tinha perdido tudo e que podia morrer engasgada. Não sei por que gostava de falar morrer engasgada, acho que é por que mastigar era uma das poucas coisas que eu ainda fazia sozinha. Eu tinha sofrido os piores golpes da vida maldita, era assim que eu chamava a vida e não havia mais nada para se fazer. Eu tinha uma especial satisfação em falar mal dos médicos que com tanto avanço científico não sabiam dizer o que acontecia comigo, tampouco conseguiam me curar, gostava de falar mal dos enfermeiros, da minha mãe, acho que falava mal de tudo que podia. Eu tinha me tornado azeda e profundamente ácida.

Com o tempo as visitas de mamãe rarearam e os amigos, então, só foram me ver no início de tudo. Senti que eu era carta fora do baralho. E nessa época comecei a falar ainda mais mal do mundo, me tornei agressiva. Falava mal de tudo que já tinha existido e do que ainda haveria de existir da hora que eu levantava até a hora de dormir. Foi, então, que veio o terceiro golpe, eu não conseguia mais falar. É claro que me revoltei profundamente, afinal, a criatura cínica que eu era queria poder abrir a boca e despejar todo tipo de coisa ruim no ar. Isso se tornou impossível. Os enfermeiros, eu desconfio, respiraram aliviados. Percebi que estavam mais leves e sorridentes. É claro que tive ainda mais raiva dentro de mim.

Depois desse golpe, eu comecei a pedir para morrer. Todo dia eu passava o dia todo pensando em morrer, torcia para que os enfermeiros me envenenassem, que eu vomitasse e me engasgasse, ou que eles me derrubassem no chão e eu quebrasse meu pescoço. Imaginava as mais variadas mortes e implorava a Deus que me levasse. Se eu era inútil por que eu ainda estava aqui?

E quanto mais pedia para morrer e conversava com Deus, mas eu me lembrava da vida que um dia eu tinha amado, eu passava horas recordando todos os instantes mágicos da minha infância e lágrimas de alegria, às vezes, escapavam dos meus olhos. Nesses momentos eu agradecia a Deus pela minha infância e depois pedia a morte. Comecei, cada vez mais, a lembrar das coisas boas da minha vida. Era uma delícia pensar nelas. E eram tantas coisas e tão boas que eu tinha vivido que parei de pedir pela morte. Voltei a sorrir. Os enfermeiros, no início, desconfiaram que eu estivesse perdendo a lucidez com meus sorrisos estranhos e despropositados, mas logo se renderam a eles e começaram a me tratar com muito amor. Eu sentia. E quanto mais recebia amor, mais eu sentia amor e gratidão por tudo. Talvez você não acredite, mas eu comecei a achar bonito o jeito com que os enfermeiros sorriam para mim, me olhavam, me cuidavam, gostava também de ver como se arrumavam de forma diferente dia após dia, o jeito cuidadoso com que faziam as coisas. E alguma coisa foi mudando… Foi mágico. Eles passaram a trazer flores para meu apartamento, passaram a me pentear, me perfumar e até me vestiam com lindas camisolas que encontraram escondidas no eu armário, com o tempo passaram a colocar roupa em mim, e tudo isso só para me agradar, liam histórias e massageavam meu corpo com a esperança de que eu pudesse sentir alguma coisa. Eu não sentia nada, mas era tão especial o jeito com que me tratavam que eu sorria sempre agradecida. É claro que com tudo isso eu sorria cada dia mais e, em um momento, eu estava tão feliz, tão feliz, que chorei de alegria, eles notaram e choraram também. E aconteceu, assim mesmo, do nada, eu voltei a falar.

Passei um bom tempo sem falar nada, por isso passei a valorizar e respeitar cada palavra dita. E eu só queria dizer coisas boas, mas não era para ser simpática ou para agradar os enfermeiros. Não. Eu sentia todas essas coisas dentro de mim. E cada vez que um pensamento negativo vinha à minha cabeça eu o expulsava com rigor. Nunca mais reclamei. O clima em casa ficou ainda melhor. Eu percebi, então, como minhas palavras impactavam o mundo à minha volta. Agradecia todos os dias por poder falar e geralmente chorava quando fazia isso. Passados, mais alguns meses, eu voltei a mover a parte superior do meu corpo. Foi nessa época que mamãe voltou a me visitar, mas agora ela já não me dizia mais que cumpria sua obrigação de mãe, não, ela me trazia chocolates, que ela sabia que eu amava.

Minha vida não era perfeita, mas eu era tão agradecida por voltar a ter certa mobilidade que transbordava de alegria. Começamos a passear pelas ruas. Eu agradecia pelas árvores que balançavam com o vento, pelas flores e seus perfumes, agradecia pelos carros, pela vida toda em movimento. O mundo, tal como quando eu era criança, tinha voltado a ser mágico. Cada dia tinha um sabor diferente e eu percebi que podia tudo. Comecei a me interessar por esportes, viagens, culinária, arte, literatura e música. A vida tinha voltado a ter sabor e eu podia saboreá-la. E como era deliciosa.

Depois de um tempo, foi muito natural, os aviões voltaram à minha vida. Eu sentia uma necessidade cada vez mais forte deles participarem da minha vida de alguma forma, só não sabia como. Passei a ir ao parque e olhar para o céu, como quando era criança. Mas agora eu sentia que cada avião que cruzava minha vida era um presente e tinha dias que eu podia chorar só de vê-los cruzando o céu azul e os raios de sol. E aquela vontade que eu tinha de ser pilota voltou a crescer dentro de mim e crescia e crescia cada dia mais. Eu me imaginava viajando pelos ares e era infinitamente feliz nesses momentos. E foi assim que um dia no parque, emocionada, vendo os aviões desenhando os céus, eu desejei com toda força que havia em meu coração voltar a andar e sabem o que aconteceu? Eu voltei a andar. Nesse momento, eu percebi que eu era divina. Eu sentia uma energia forte dentro de mim e, eu sabia, que ela habitava outras pessoas e também o mundo. Ela era aquela força maior, a natureza, o Universo, era tudo e eu era tudo com ela. Percebi a força da minha energia e senti que podia realizar quaisquer coisas que meu coração quisesse. Soube que tinha sido eu que me paralisei e que tinha sido eu também que operei meus próprios milagres. Não sozinha, é claro. Jamais. Eu era parte dessa energia divina e essa energia divina habitava tudo. O mundo era completamente mágico.

Comecei aos trinta e sete anos, sim foram sete anos que passei paralisada, a fazer curso para virar pilota de avião. Minha mãe que quase tinha perdido sua filha já não dizia mais nada. E, mesmo que dissesse, eu já não dava valor à voz do mundo. Eu sabia que valia sempre ouvir a voz do meu coração. Eu sabia da sua magia, eu tinha bebida de sua fonte. Fui a melhor aluna do curso e saí com um convite de emprego de uma renomada companhia aérea.

Hoje, vinte anos depois, continuo cruzando os céus desse mundo, e vivendo a minha vida de sonhos. Agradeço ao Universo por poder brincar todos os dias da minha vida até o fim. O céu sempre pode ser azul, se você quiser.

FIM

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